


Impossvel Esquecer

Penny Jordan




          
Captulo 1
          Annie parou na metade da escada do belo bal. Um sorriso encantador distendia seus lbios e um brilho sonhador e distante alterava a clareza habitual dos 
inteligentes olhos cinzentos. Tivera aquele sonho novamente na noite anterior, o sonho em que o via. Ele. E dessa vez, tudo havia sido ainda mais delicioso e real 
que antes. To real que...
  Vermelha, sentiu novamente o prazer aquecendo o corpo. Na noite anterior, quando ele a abraara e acariciara... Um violento arrepio a sacudiu e ela subiu os ltimos 
degraus correndo.
  Dispunha de uma hora para preparar-se antes de ir buscar Helena e o marido. Os trs sairiam para uma refeio especial de comemorao, e era nisso que devia pensar, 
no em um homem maravilhoso criado por sua imaginao, por seus sonhos... por sua carncia.
  Para uma mulher de vinte e trs anos sem nenhum amante, a intensidade e a nitidez dos sonhos erticos envolvendo o homem que passara a chamar de amante perfeito 
e alma gmea eram surpreendentes. Seria um sinal da falta de companhia masculina, ou uma indicao do poder de sua imaginao? No conhecia a resposta. Tudo que 
sabia era que desde o primeiro sonho, nenhum outro homem conseguira tocar suas emoes.
Estava ansiosa pela noite com os amigos. Afinal, Annie no era apenas sua amiga mais prxima e uma espcie de me substituta; tambm era a mdica que salvara sua 
vida quando outros menos determinados e atentos afirmavam que...
  Tensa, ela engoliu em seco. Mesmo cinco anos depois do acidente, a lembrana de como estivera prxima da morte ainda tinha o poder de aterroriz-la:
Sabia que o raciocnio no era lgico, mas o fato de no ter nenhuma lembrana dos eventos que antecederam e causaram o acidente e das semanas que passara em coma 
tornava o medo ainda mais intenso, como se ressaltasse a fragilidade da vida.
  Ao empurrar a porta do quarto, Annie sentiu a fraqueza do brao e usou o peso do corpo para concluir o movimento. Aquele era o nico legado fsico do dramtico 
acidente. O brao havia sido esmagado, e por causa da extenso e da gravidade das leses, o mdico que a recebera no pronto-socorro estivera a ponto de amput-lo 
quando, notando a presena de Helena, pedira sua opinio. Chefe do departamento de microcirurgia, ela assumira o comando e decidira que era possvel salvar o membro 
atingido to duramente.
  O rosto de Helena havia sido o primeiro que vira ao recobrar a conscincia, mas s depois de muitas semanas descobrira atravs de uma enfermeira sobre a sorte 
que tivera por ser atendida por ela.
  Havia sido Helena quem ficara a seu lado por horas e horas, falando e incentivando sua conscincia durante o perodo do coma, tentando despert-la com seu amor 
e sua fora de vontade. Annie sabia.que nunca deixaria de am-la e reverenci-la por tudo que fizera.
  - Voc no foi a nica a ganhar com aquela experincia - Helena costumava brincar. - No tem idia de como o mercado passou a valorizar-me -depois daquela cirurgia. 
Para mim, seu brao vale mais do que o prprio peso em ouro. E voc, minha querida,  mais *especial do que posso expressar. A filha que nunca imaginei que teria... 
Ambas haviam chorado na primeira vez em que Helena fizera a declarao comovente. Qualificada e respeitada em. seu meio profissional, a mdica perdera o tero e 
as chances de ser me ainda muito jovem, e Annie fora abandonada ainda beb e criada em um lar para crianas rfs. Apesar de ter sido sempre bem tratada, jamais 
tivera o amor especial com que sonhara desde os primeiros anos de vida.
H dois anos, quando Helena finalmente aceitara o pedido de casamento do scio Bob Lever, Annie havia sentido uma imensa felicidade pelo casal. At ento, ela sempre 
recusara as insistentes propostas de Bob, dizendo que um dia ele poderia conhecer algum especial que fosse capaz de ter filhos, e que teria de estar livre para 
quando esse dia chegasse. S os esforos combinados de Annie e Bob a fizeram mudar de idia.
  No final, lanando mo de um argumento quase desesperado, Annie lembrara que, depois de t-la praticamente adotado como filha, Helena no tinha mais razes para 
recusar o pedido de Bob.
  - Muito bem, eu desisto - ela respondera rindo. - Mas como sua me adotiva, exijo que retribua encontrando um parceiro especial e me dando muitos netos.
  Depois disso, graas  atmosfera relaxante e ao excelente jantar de Natal que haviam preparado juntas, Annie encontrara a coragem necessria para contar  amiga 
sobre os extraordinrios sonhos que passara a ter.
  - Lembra-se de quando o sonho ocorreu pela primeira vez? - Helena indagara com tom profissional.
  -No tenho certeza... Creio que j os tinha por algum tempo antes de me dar conta deles. E quando percebi o sonho, tudo era muito familiar, como se aquele homem 
fizesse parte de minha vida. Como se eu o conhecesse.
  Havia sido difcil explicar a natureza intensa e inquietante do sonho, a sensao de familiaridade despertada pelas cenas persistentes.
Diante do espelho, enquanto se preparava para vestir o traje que ela e Helena haviam comprado h um ms especialmente para aquela ocasio, Annie sorriu. Tivera sorte 
por no ter sofrido nenhum ferimento no rosto. Os traos delicados ainda compunham o mesmo conjunto que via nas poucas fotos que possua da infncia. Os cabelos 
ainda eram louros, como antes, uma herana dos pais que no conhecera. A maturidade e a autoconfiana a libertaram da agonia de no saber quem ou o que haviam sido 
seus pais. Era suficiente que houvessem dado a ela o mais precioso de todos os bens: a vida.
Tudo que sabia sobre o acidente era o que ouvira dizer, o que fora relatado no tribunal, durante o julgamento que resultara na condenao do motorista que a atropelara. 
Preso por direo perigosa, ele tivera de pagar uma indenizao significativa por perdas e danos. Mas o maior lucro do ponto de vista de Annie no havia sido a enorme 
soma em dinheiro que garantira sua sobrevivncia, e sim a entrada de Helena e Bob em sua vida.
  Como haviam argumentado os advogados do motorista, o acidente no a impedira de concluir o curso universitrio que comearia logo aps o atropelamento, nem a retirava 
em carter definitivo do mercado de trabalho. Atualmente trabalhava meio perodo, o que comprovava a teoria dos advogados, mas as evidncias eram esmagadoras. Cinco 
testemunhas haviam visto o automvel avanar no sinal vermelho e atingi-la bem no meio da faixa de segurana para pedestres. O motorista estava embriagado, uma circunstncia 
que, segundo seus advogados, fora provocada por problemas pessoais que ele j havia solucionado.
Annie suspirou. A esposa do acusado tambm comparecera para depor. Chorando, ela afirmara que, sem o salrio do marido e sua fora de trabalho, a vida da famlia 
se tornaria muito difcil. Como uma mulher sozinha poderia sustentar trs filhos pequenos? Annie lamentara por eles, e ainda era tomada de assalto pela compaixo 
sempre que pensava naquela famlia, mas, como Helena apontara, a culpa pela situao em que estavam no era dela.
De qualquer maneira, ficara feliz por saber que o motorista no morava na cidade. Assim, no corria o risco de encontr-lo, ou sua famlia, numa rua qualquer.
Era estranho pensar que no passara toda a vida naquela pequena e pacata cidade histrica com seu castelo medieval, uma universidade e um rio que, h muitos anos, 
havia sido a fonte de toda a riqueza e da posio destacada do lugar. Os barcos que ainda utilizavam a marina local eram apenas veculos de passeio e lazer; os navios 
mercantes que um dia haviam aportado ali faziam parte do passado.
  No conseguia lembrar por que havia se candidatado a uma vaga na universidade de Wryminster, nem quando chegara na cidade. Era evidente que no tivera tempo para 
fazer amigos nem confiar a eles seus sonhos e ambies..O acidente ocorrera uma semana antes do incio das aulas, e o nico endereo que as autoridades encontraram 
foi o do lar para crianas rfs onde ela crescera.
De acordo com o que Helena pudera descobrir, Annie havia sido uma criana muito inteligente, embora solitria. E havia sido Helena quem a levara para casa quando 
o hospital finalmente a liberara. Helena cuidara dela com a dedicao e o carinho de uma me. Com o amor de uma me. E tambm a encorajara em sua necessidade de 
tornar-se independente, contribuindo inclusive na busca por uma casa adequada e prxima da dela.
Enquanto retirava do armrio o traje novo, Annie suspirou. Percorrera um longo caminho at esse dia. Muito longo... Confeccionado em crepe de l azul, o conjunto 
era composto por cala comprida, um corpete bordado com linha cintilante e um sobretudo que quase tocava seus tornozelos. Relutara antes de comprar uma roupa to 
elegante e cara, argumentando que no saa de casa o bastante para possuir peas como aquela, mas Helena a convencera a adquirir a bela vestimenta. Na opinio da 
mdica e amiga, j era hora de Annie sair mais e conhecer pessoas diferentes e interessantes.
  - Sayad faria qualquer coisa para convenc-la a aceitar um de seus convites - ela lembrara.
  Sayad era um anestesista que ingressara recentemente na equipe chefiada por Helena. Atraente e simptico, ele se interessara por Annie desde que a vira pela primeira 
vez. Era interessante, educado, gentil, mas...
  Mas no era o homem que via em seus sonhos. Oh, no! E nem chegava aos ps dele. Apesar dos traos harmoniosos, do sorriso agradvel e das maneiras envolventes, 
Sayad no tinha a maturidade misteriosa do homem que perturbava seu sono todas as noites. Havia um ar de autoridade em seus gestos, uma masculinidade poderosa e 
dominadora que jamais encontrara em nenhum outro homem.
  Apesar do preo do conjunto, decidira compr-lo porque naquela noite participaria de uma comemorao especial; o aniversrio de Bob e o aniversrio de casamento 
dele e de Helena.
  Seguindo o conselho da mdica, que havia se preocupado com o desgaste provocado pela longa batalha judicial travada nos tribunais antes da sentena que decretara 
o pagamento da indenizao, Annie havia tirado licena do trabalho para recuperar-se. No incio da semana despedira-se dos colegas na companhia petroqumica multinacional 
Petrofiche, cujos escritrios centrais funcionavam numa antiga propriedade rural na periferia da cidade.
  Para o jantar daquela noite, reservara uma mesa no mais prestigiado restaurante da regio ribeirinha, disposta a organizar e arcar com os custos da comemorao. 
Por isso ia buscar Helena e Bob em seu novo e reluzente Mercedes.
 O carro havia sido um grande passo em sua vida. No pudera dirigir imediatamente aps o acidente, e durante muito tempo tivera medo at mesmo de chegar perto de 
um automvel. Sentar-se ao volante havia sido uma idia que a aterrorizara. Eventualmente se havia forado a superar os medos e fora aprovada no exame. A fraqueza 
muscular no brao a convencera a optar por um modelo ' de transmisso automtica, e finalmente Annie comprara seu primeiro carro.
  Pronta, parou diante do espelho e sorriu satisfeita. Depois da concluso do processo e da luta no tribunal, finalmente comeava a recuperar o peso perdido, e a 
roupa caa ainda melhor do que no dia em que a comprara. Sim, tinha motivos para estar contente. A casa onde vivia, por exemplo. Participara de todo o trabalho de 
reforma, opinando e supervisionando cada mudana, escolhendo pessoalmente toda a moblia. A enorme cama de casal atraiu seu olhar. Ainda no entendia por que havia 
comprado aquela cama, por que nem se dera ao trabalho de examinar todas as outras opes oferecidas pela loja.
  Tudo que sabia era que, ao v-Ia, tivera certeza de que aquela era a escolha ideal.
  Em seus sonhos, ela e o amante estavam sempre naquela cama, embora nos sonhos... Perturbada, lembrou que chegaria atrasada para apanhar os amigos se no se apressasse.
Agitada e corada, Annie desceu a escada e saiu.
  = Deus, como este lugar est movimentado! - Helena comentou.
Annie parava o carro na ltima vaga disponvel no estacionamento do restaurante.
- Quando telefonei para reservar a mesa, o gerente comentou que esperava ter uma noite de muito movimento. A Petrofiche est oferecendo um jantar para um novo consultor 
de biologia martima.
- Oh, sim,  verdade! Ouvi dizer que eles encontraram um substituto para o professor Salter. Foram busc-lo em um dos Estados do Golfo, atrados por suas impressionantes 
qualificaes e pela experincia diversificada. E o homem ainda  jovem, segundo os comentrios que ouvi. Deve ter pouco mais de trinta anos. E parece que j trabalhou 
para a Petrofiche no passado.
  -  estranho pensar em um bilogo trabalhando para uma indstria petroqumica - Bob apontou.
  - Querido, francamente - Helena exclamou sorrindo. - Acha que os especialistas em biologia martima s fazem filmes sobre tubares e corais?
-  claro que no.
  - Hoje em dia todas as grandes empresas, especialmente as multinacionais, se esforam para  construir e manter uma imagem de responsabilidade ambiental - Annie 
explicou. - Vazamentos de leo sempre tm efeitos devastadores sobre os mares e oceanos e sobre suas formas de vida, e  isso que leva companhias como a Petrofiche 
a empregarem especialistas em biologia martima.
  Estavam fora do carro e a caminho do restaurante. Os donos, marido e mulher ainda jovens e bastante conhecidos pelos freqentadores, costumavam receber os clientes 
mais prximos pessoalmente. Liz Rainford sorriu ao v-los.
  - Reservei sua mesa favorita - ela sussurrou enquanto chamava um garom para acompanh-los. Liz fazia parte de um comit de caridade com o qual Annie colaborava 
eventualmente angariando fundos, e a comerciante conhecia a histria em torno do acidente e sabia de seu relacionamento com Helena e Bob. - Sei que esta  uma noite 
especial para todos vocs.
  A mesa em questo ficava em um canto afastado do salo principal, ao lado de uma janela de onde era possvel ver o jardim e o rio. Sentada, Annie suspirou invadida 
por uma sbita alegria.
  s vezes sentia que havia renascido naquela manh h cinco anos, quando abrira os olhos e vira Helena parada ao lado do leito hospitalar, olhando para ela. Embora 
j pudesse lembrar boa parte da infncia e da adolescncia, as recordaes ainda eram confusas como imagens em um filme sem foco, e em alguns momentos era dificil 
acreditar que aquelas lembranas, aqueles perodos, faziam parte de sua vida. Para confort-la nos momentos de maior preocupao, Helena sempre dizia que aquele 
era o efeito do trauma sofrido pela mente e pelo corpo, um mecanismo de defesa de que a mente lanava mo para proteg-la.
O restaurante estava cheio. Havia um salo secundrio cujas portas permaneciam fechadas para garantir a privacidade do grupo da Petrofiche. As garotas do escritrio 
haviam passado dias comentando a chegada do novo consultor, e Annie ouvira algumas opinies antes de sair de licena na semana anterior.
  -- Ele  dono de uma empresa. A Petrofiche  apenas uma cliente - revelara com ar importante a chefe das secretrias, Beverly Smith. - O homem s vir duas vezes 
por semana, quando no estiver em campo.
  - Humm... Talvez ele esteja precisando de uma assistente. Adoraria passar alguns dias na Barreira de Corais - suspirara outra funcionria.
  - Corais? - protestara outra. - Voc acabaria indo ao Alasca!  l que todos os especialistas em biologia martima gostam de fazer suas pesquisas.
  Annie ouvira a conversa animada com um sorriso nos lbios.
  Embora recebesse muitos convites de colegas da empresa, nunca aceitara sair com um deles. Helena a prevenira sobre os riscos de deixar que o amante imaginrio 
conjurado em seus sonhos a cegasse para a realidade e impedisse a aproximao de parceiros reais, mas Annie sabia que a relutncia no era fruto apenas dos sonhos 
romnticos.
Era quase como se, de alguma forma, algo a impedisse de envolver-se com algum. Como se esse envolvimento fosse errado. No sabia de onde vinha essa sensao, e 
os sentimentos eram to confusos e nebulosos, to inexplicveis e estranhos, que havia preferido no comentlos com Helena. Tudo que sabia era que devia esperar. 
Mas... esperar o qu? Ou quem? No tinha idia. S sabia que era algo que devia fazer.




Captulo 2

Mais tarde, quando esperavam pela sobremesa, Annie pediu licena aos amigos para ir ao banheiro.
  Estava passando pelo salo reservado quando a porta se abriu e um grupo de quatro homens surgiu no corredor. Dois deles eram executivos da companhia para a qual 
ela trabalhava, o terceiro era um desconhecido, e o quarto...
  O choque fez seu corao bater mais depressa. Parada e boquiaberta, ficou olhando para o quarto homem do grupo com um misto de terror e incredulidade.
  Era ele! O homem de seus sonhos! O amante imaginrio! Mas como podia ser ele, se a criatura era apenas produto de sua imaginao? No era possvel! Devia estar 
imaginando... alucinando... Havia bebido champanhe demais.
  Fechou os olhos e contou at dez antes de abri-los. O homem continuava no mesmo lugar, olhando para ela. Era como se o sangue houvesse sido drenado de suas veias, 
como se fosse apenas um corpo vazio. O pnico a invadiu. Tentou mover-se e no conseguiu. Tentou falar, mas nenhum som brotou da garganta bloqueada por um n. O 
medo era mais forte que todos os outros sentimentos. Queria mover-se. Queria falar. Mas no conseguia. E com uma certeza, devastadora, soube que ia desmaiar.
Annie abriu os olhos e constatou que estava nos aposentos pessoais de Liz. Bob e Helena  estudavam com ansiedade e apreenso.
  - Querida, o que aconteceu? - Helena perguntou preocupada segurando sua mo. Os dedos buscaram a veia em seu pulso e a profissional tomou o lugar da amiga. Determinada, 
Annie sentou-se.
  - Estou bem. Foi s um desmaio - sussurrou, chocada demais para revelar o verdadeiro motivo do desmaio. - Nunca tolerei bebidas alcolicas.
  De qualquer maneira, Bob e Helena insistiram para que ela dormisse em seu antigo quarto na casa do casal. Tensa, a mdica e amiga sugeriu que ela devia realizar 
alguns exames de rotina.
- No h nada de errado comigo - Annie insistiu. - Foi apenas o choque...
- Choque? Que tipo de choque?
  - Eu... pensei ter visto algum. E... Bem, deve ter sido um engano. Imaginei algum. Sei que foi isso, porque  impossvel...
  - Quem era? Quem voc pensou ter visto, Annie? - Ningum. Como disse, foi s um engano. - Mas ao estender a mo para pegar a xcara de ch que Bob havia preparado, 
comeou a tremer tanto que teve de deix-la onde estava. Cobrindo o rosto com as mos, admitiu: - Oh, Helena, eu o vi... O homem dos meus sonhos. Ele estava... Sei 
que  impossvel, que ele no existe, mas... Est ficando muito agitada. Vou lhe dar algo para relaxar e dormir, e amanh conversaremos com mais calma. Apoiada nos 
travesseiros, Annie ofereceu um sorriso plido. Sabia que a amiga estava certa, como sempre. Vrios minutos mais tarde, Helena voltou ao quarto com um copo de gua 
e dois comprimidos. Com uma ternura quase maternal, ela a ajudou a tomar o remdio e ajeitou as cobertas sobre seu corpo.
- Lamento ter arruinado sua noite.
A frase trmula foi a ltima que Annie pronunciou antes de comear a sentir os efeitos do medicamento. 
  Mais calma, estranhou a prpria reao intensa e infantil. Por causa de uma semelhana imaginria entre um desconhecido e o homem com quem sonhava constantemente, 
seu amante imaginrio, perdera os sentidos no meio de um restaurante lotado. Pensando bem, o homem criado por sua imaginao jamais a teria olhado como aquele desconhecido, 
com uma hostilidade fria e agressiva nos olhos azuis e um desprezo cuja intensidade rivalizava com a da raiva estampada em seu rosto.
  Sonolenta, fechou os olhos e ouviu o som da porta se fechando. Helena ainda descia a escada quando ela adormeceu.
  - Suspeito de que a emoo da noite e as lembranas provocadas causaram o episdio - a mdica comentou com o marido quando o encontrou na sala.
  - No sei. Tem certeza de que o tal homem no pode ser algum que ela tenha conhecido?
  - Bem,  uma possibilidade. Afinal, Annie ainda no recuperou a memria por completo. Ela se lembra de ter chegado em Wryminster, mas no sabe quando isso aconteceu. 
E difcil imaginar que algum to intimo a ponto de ser responsvel pelos sonhos que ela relata no a tenha procurado depois do acidente. Os jornais anunciaram o 
fato. - Tem razo,  pouco provvel - Bob concordou.
Annie dormia. Os lbios estavam distendidos num sorriso e o corpo era tomado por uma mistura de nervosismo e excitao.
  - Deus, voc  linda... Vai me deixar v-Ia e toca-la?  tudo que quero...
Mos quentes e experientes comearam a despi-Ia, provocando uma ansiedade que logo deu lugar ao prazer. O corpo respondia aos apelos verbais enquanto ia sendo desnudado 
e tocado, acariciado e despertado. A sensao era nova e agradvel.
Sabia que aquela era sua primeira experincia com um homem, sua primeira vez, e ele havia garantido que a escolha, a deciso final seria dela. Se quisesse, s teria 
de exigir que parasse, e nada mais aconteceria. Mas no queria que ele parasse. Queria...
  Os dedos alimentavam o desejo, despertando uma paixo que era de alguma forma conhecida, um sentimento do qual sempre soubera ser capaz, mas que at ento estivera 
trancado dentro dela, escondido em algum recanto secreto para o qual s ele tinha a chave.
  Amava-o tanto... E o desejava com ardor. O que considerava invivel com qualquer outro era perfeito com ele. O corpo todo ecoava a fora do que estava sentindo... 
o ardor da paixo... o amor. S precisava fit-lo para sentir-se derreter.
  A maneira como ele pronunciava seu nome era mais potica do que todos os sonetos. O jeito como a olhava era mais lindo do que todas as canes. E os sentimentos 
que despertava eram intensos e assustadores. Ele a excitava, confundia, provocando a vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, preenchendo-a com tamanha felicidade 
que chegava a sentir medo. Com ele sentia-se quase imortal, mas, contrariamente, tambm experimentava a prpria fragilidade em sua verso mais extremada, como se 
a dependncia daquele amor pudesse destrui-la, como se a simples idia de perd-lo pudesse lev-la  runa.
  - Algum j disse que sua boca  muito sexy? - ele acompanhou o contorno com a ponta de um dedo, sorrindo ao ver que Annie entreabria os lbios para captur-lo 
e sug-lo.
  No sonho, ela gemia num prazer sem censura, o corpo movendo-se em busca do contato com o amante.
O sol da tarde penetrava pelas janelas amplas. Se abrisse os olhos, sabia que veria l embaixo o tom prpura das montanhas distantes, e se ficasse em p veria a 
gua cristalina do rio correndo manso e poderoso. Mesmo distante, podia ouvir o som constante, quase como se sentisse a fora da correnteza, da mesma forma que sentia 
o pulsar msculo no interior do prprio corpo. Podia sentir o desejo nas mos que a tocavam.
  - Se quer que eu pare,  melhor dizer agora - ele sussurrou com voz rouca. - Depois ser tarde demais. Mas no diria nada. Amava-o o bastante para enfrentar a 
experincia assustadora to diferente dos beijos puros que trocara com os namorados de infncia.
  - Sou muito, muito mais velho que voc - ele repetia com insistncia.
  Mas, em vez de afast-la, a confisso persistente s intensificava o interesse e o desejo que sentia por ele, como se o imbusse de um carter mstico, mgico, 
um conhecimento e uma sabedoria que despertavam em seu corpo anseios incontrolveis.
  E agora estava prxima do momento da revelao, o momento em que...
  Annie emitiu um grito agudo e acordou assustada, o corpo banhado em suor e a mente confusa. Sentou-se na cama e cobriu o rosto com as mos.
  O sonho havia sido to ntido, to real.:. E o amante imaginrio aproximava-se cada vez mais de um ser vivo, de uma entidade que podia adquirir vida fora dos limites 
de sua mente.
  Trmula, fechou os olhos e lembrou o momento em que havia beijado a pequena cicatriz na tmpora do amante, o mesmo sinal que vira no desconhecido que a levara 
a desmaiar. Quantas vezes sonhara com aquela cicatriz sem se dar conta?
No sabia. S sabia que uma certa tenso o dominara no momento em que a beijara. A reao era to familiar quanto o prprio reflexo. Mas como era possvel? O que 
estava acontecendo? Estaria desenvolvendo algum tipo de sexto sentido, alguma percepo diferenciada, como a capacidade de prever o futuro? Estariam eles destinados 
a um encontro? Talvez os sonhos fossem o caminho encontrado pelo destino. para preveni-Ia e prepar-la para o que estava por vir. A idia alimentou o medo que a 
fazia tremer.
  Estivera muito perto da morte. Embora nunca houvesse comentado com ningum, havia experimentado a sensao descrita por outras pessoas na mesma situao, indivduos 
cujas vidas tambm estiveram em risco. Havia sido como se estivesse correndo para um local maravilhoso e acolhedor, como se fosse empurrada atravs da escurido 
na direo da luz. Depois sentira a fora sbita e irresistvel que a empurrara no sentido contrrio. Ouvira a voz impessoal anunciando que ainda no era seu momento 
de partir.
Teria essa experincia desenvolvido nela a habilidade de pressentir os eventos importantes que ainda ocorreriam em sua vida?
Teria o anseio secreto de encontrar algum especial, algum a quem pudesse amar com a segurana gerada pela certeza da retribuio, afetando seu equilbrio a ponto 
de estar vivendo em sonhos o que ainda estava por acontecer na realidade? Seria o amante imaginrio uma figura real que encontraria no futuro?
  Impossvel. Absurdo. Talvez... Mas quantos mistrios desafiavam a razo e a lgica?
O medo que sentira no incio da noite, o choque, o pnico, tudo desaparecia em vista da excitao que beirava a euforia. O amante imaginrio no era apenas um sonho. 
Era real. Era... Entusiasmada, Annie fechou os olhos e tentou sentir novamente o calor daquelas mos.
  S depois de muito tempo conseguiu voltar a dormir, e quando finalmente fechou os olhos, estava convencida de que o encontro com a personificao do homem de seus 
sonhos havia sido um ato do destino, um evento para o qual a imaginao tentara prepar-la.
- Annie, como se sente, meu bem?
  Sonolenta, ela abriu os olhos e viu Helena entrando no quarto com uma xcara de caf.
  - No sei - admitiu. - Aqueles comprimidos me nocautearam. - Devagar, sentou-se na cama e encarou a amiga com determinao. - Helena, voc... acredita em destino?
- No sei. O que quer dizer com destino?
- O homem que vi no restaurante ontem  noite. A princpio pensei ter imaginado tudo aquilo. Tive certeza de que no podia ter visto o homem com quem sonho constantemente. 
Mas depois sonhei com ele novamente, e ento soube...
- O qu? Pode falar comigo.
  - Acho que nosso encontro foi planejado pelo destino e... - Parou e balanou a cabea, identificando a incredulidade no rosto da amiga. - Sei que tudo isso parece 
absurdo, mas que outra explicao pode haver? Por que sonho com ele todas as noites? De onde vem a sensao de j conhecer esse homem?
  Helena sentou-se na cama e deixou a xcara sobre o criado-mudo. Annie era uma jovem adorvel, algum a quem amava como a filha que nunca tivera, mas tambm era 
uma mulher muito vulnervel. A gravidade do acidente e o trauma gerado por ele haviam roubado a energia que deveria ter sido usada em seu processo de amadurecimento, 
a energia que fora desviada para a recuperao fisica.
No que Annie fosse pouco inteligente. De maneira nenhuma. Conseguira conquistar o diploma e tinha um interesse pelo mundo e pelas pessoas que, em alguns sentidos, 
a tornava mais madura que outros jovens de sua idade. Mas ela no havia amadurecido como mulher, no tivera tempo e oportunidade de viver experincias sexuais, cometer 
enganos, erros de julgamento, enfim, mergulhar em todas aquelas loucuras to prprias da juventude em sua jornada atravs dos anos turbulentos entre o final da adolescncia 
e a metade da terceira dcada de vida.
  Agora ela dava sinais de preferir um amante imaginrio a um homem de carne e osso, de acreditar mais no destino do que na realidade.
  - Acha que estou sendo tola, no ? - Annie perguntou constrangida.
  - No. Mas talvez... J pensou que esse homem pode parecer familiar por ser realmente um conhecido?
- Refere-se ao homem dos meus sonhos?
  - Ao homem com quem sonha - Helena corrigiu. - Talvez tenha essa sensao de familiaridade por conhec-lo de verdade.
- O qu? Isso  impossvel!
  - Minha querida, ainda existem alguns espaos em branco na sua memria. As semanas que antecederam. o acidente, o episdio propriamente dito e as semanas seguintes, 
quando estava em coma... No se lembra desses perodos.
  - Sim, eu sei. Mas no posso t-lo conhecido... no como sinto... como acontece... Se fosse verdade... - Parou e balanou a cabea. - No, Helena. O que est sugerindo 
 simplesmente invivel. Eu saberia se ele... se ns... No - repetiu.
- Confesso que a idia parece improvvel, mas senti que devia mencion-la.
  - Eu entendo. Mas se esse homem me conhecesse, no acha que ele teria aparecido depois daquele anncio que ps nos jornais? No, minha amiga. No conheo o homem 
que invade meus sonhos todas as noites. - E sorriu. - Lamento o susto que dei em todos com aquele desmaio ontem  noite - acrescentou com tom mais prosaico. - Deve 
ter sido o efeito do encontro inesperado depois de duas taas de champanhe.
- Bem, foi uma noite muito emocionante - Helena comentou sorrindo.
- Voc tem sido to boa para mim!
- Pode estar certa de que tem me recompensado por tudo que fiz. E vai me dar netos! - provocou, amenizando a tenso antes de exclamar. -Cus! Prometi a Bob que o 
ajudaria com as malas. Vamos viajar para aquela conferncia amanh e... Ah, a quem estou tentando enganar? Ele  muito melhor nisso que eu.
Annie suspirou.
  - Quatro dias no Rio de Janeiro... Que maravilha! - Nem tanto. A conferncia ocupar trs dias inteiros, e quando conseguir me recuperar do cansao provocado pelas 
exploraes de Bob e pela diferena entre os horrios... - Pare de reclamar! Voc sabe que vai adorar cada minuto da viagem. Quando fomos a Roma no ano passado, 
fui eu que tive de voltar para o hotel e descansar!
  - E verdade. Foi uma viagem maravilhosa, no? - Helena levantou-se. - Fique deitada e descanse. Pode estar se sentindo bem, mas seu corpo ainda est tentando superar 
o choque.
- Foi s um desmaio, Helena.
  Mesmo assim, teve de concordar com a mdica e amiga quando, horas mais tarde, ela anunciou que a levaria ao hospital para alguns exames.
  - Ah, s mes! - O residente brincou depois de certificar-se de que no havia nada de errado com Annie. - Adoram criar confuso!
- Tem razo! - Annie concordou sorrindo.
Depois corou ao perceber que o jovem a olhava com um misto de admirao e interesse.



Captulo 3

        - Tem certeza de que est bem? - Helena perguntou quando Annie foi deix-los no aeroporto.
  -  claro que sim. E para provar, vou comear o trabalho de jardinagem que estou adiando h meses.
  O jardim da pequena casa era longo e estreito, delimitado ao fundo por um muro alto de tijolos que garantia a privacidade. No Natal, Helena e Bob haviam dado a 
ela-um livro de jardinagem com idias maravilhosas e um vale bastante generoso para compras numa loja local, e Annie fizera um projeto que pretendia pr em prtica.
  A primeira coisa de que precisava eram trelias coloridas para apoiar nas paredes, e assim, depois de deixar o casal de amigos no aeroporto, ela seguiu direto 
para a loja especializada em equipamentos para jardim.
Vrias horas mais tarde, entrou no carro satisfeita com a escolha. As trelias seriam entregues em sua casa e um funcionrio do setor de cercas iria fix-las. Cantarolando, 
ligou o motor e deixou-se invadir pela atmosfera alegre do dia. O sol brilhava forte no cu azul e uma brisa suave soprava as nuvens brancas que vagavam lentamente. 
Num impulso, decidiu trocar o caminho mais curto pela rota que passava pelo rio.
A regio rural nos limites da cidade era cortada por estradas estreitas que podiam confundir os motoristas menos atentos, especialmente quando se optava pela rota 
entre as rvores e mais afastada do rio, como ela acabara de fazer. Apreensiva, parou em um entroncamento sem saber por onde devia seguir.
  O instinto apontava para a direita, mas a lgica sugeria que a pista da esquerda a levaria de volta ao rio. Encolhendo os ombros, seguiu o instinto e arrependeu-se 
ao constatar que o caminho escolhido ia aos poucos se tornando mais estreito, at transformar-se em uma nica pista que subia uma encosta de vegetao to exuberante, 
que era impossvel determinar onde estava. Apesar da certeza de nunca ter dirigido por ali antes, Annie sentia que a rea era familiar.
  Depois de uma curva mais fechada e perigosa, ela se viu diante da entrada de uma casa muito grande em estilo vitoriano. No alto de cada pilar de tijolos havia 
uma estranha escultura de metal. As peas haviam sido feitas com os arpes dos navios do homem que construra aquela casa com o dinheiro que ganhara com sua frota. 
E como sabia disso? Aturdida, parou o carro e desligou o motor. Devia ter lido a informao em algum lugar. Havia lido muito durante os meses de recuperao, e um 
dos assuntos que despertara seu interesse fora a histria local.
  E no entanto... Desceu do carro e sentiu o corao bater mais depressa enquanto caminhava para a casa. As rvores que flanqueavam a alameda bloqueavam a luz do 
sol, projetando sombras to escuras que, ao superar aquela etapa do caminho, ela se sentiu ofuscada pela luminosidade natural. Fechou os olhos tentando superar o 
desconforto, mas voltou a abri-los ao sentir que algo se colocara novamente entre ela e a luz do sol.
- Voc! - sussurrou, o corpo tremendo por conta da mistura de choque e excitao provocada pela viso. -  voc! - repetiu, os olhos iluminados pelo espanto e pela 
felicidade enquanto se aproximava do homem que sara da casa. 
  De perto e  luz do dia, podia certificar-se de que ele era exatamente o homem de seus sonhos. A natureza do impulso que a levara at ali confirmava as hipteses 
que antes haviam parecido absurdas.
Era verdade. O destino traara aquele encontro.
  Os olhos eram to azuis quanto os que via em sonhos. A pele era bronzeada e os cabelos tinham o mesmo tom negro que se acostumara a ver todas as noites. Tudo nele 
era como nos sonhos. Tudo! At mesmo a boca. Especialmente a boca!
  Annie sentiu um arrepio diante da promessa de sensualidade dos lbios carnudos. Se fechasse os olhos, poderia experimentar novamente as sensaes provocadas pelos 
beijos ardentes.
- Ento voc veio.
  A voz ecoou em sua mente, o tom inesperadamente rspido, at um pouco hostil, mas familiar.
  A intensidade das emoes era assustadora. Viajara de muito longe at aquele momento, at aquele instante no infinito.
  - Sim - respondeu em voz baixa. - Voc... sabia que eu viria? - Era como se houvesse penetrado em outra dimenso.
Podia ver a porta da casa aberta atrs dele. Alm dela, sabia, havia um longo corredor com uma mesa sustentando um busto de bronze do homem que construra o imvel. 
Na balaustrada da escada era possvel ver entalhadas todas as formas de criaturas martimas, tanto reais quanto msticas: golfinhos, baleias, polvos, cavalos marinhos 
e sereias haviam sido desenhados na madeira pelas mos habilidosas de um arteso.
- Eu...
A voz dele soava tensa, como se tambm tivesse conscincia da importncia do que acontecia. Os olhos buscaram outros pontos, como se no suportassem encar-la, e 
Annie foi tomada de assalto por uma mistura de amor e desejo de proteg-lo.
  Impelida pelo instinto, aproximou-se e pousou a mo em seu brao.
  - Est tudo bem. Estou aqui. Ns... ns... - Podia sentir os msculos enrijecendo sob seus dedos, e ao encar-lo notou que os lbios estavam apertados numa linha 
fina. - Podemos entrar? - indagou hesitante.
  A casa a atraa. Era como se j a conhecesse, como se tivesse conscincia de suas formas, dos cmodos, da histria do lugar, do cheiro que a impregnava. Como tambm 
o conhecia.
  Sentia a tenso crescendo, mas era tarde demais para recuar. Estava no hall, e sabia que ele a seguira e bloqueava a sada.
  - Nunca pensei que isto pudesse acontecer - Annie comentou com simplicidade, deixando os olhos registrarem cada detalhe da realidade daquele ser humano.
  Ele era alto, muito mais alto do que ela. Mas j sabia disso. Como tambm conhecia cada milmetro do corpo coberto por uma camisa e pela cala jeans que no escondia 
coxas poderosas. Havia uma pequena cicatriz na parte interna da coxa direita, relquia de um acidente de infncia. E quando a tocava com os lbios ele...
  No conseguia controlar o tremor que sacudia seu corpo ou esconder o que sentia e desejava. Amava-o tanto! - Podemos... subir? - perguntou com voz rouca, os olhos 
fixos em seu rosto enquanto esperava pela resposta. Teve a impresso de que muito tempo havia se passado antes de ouvir a voz tensa e seca.
- Se  isso que quer...
  - Sim - afirmou ousada. - Sim,  isso que quero. - "Quero voc. Amo voc." Queria gritar seu amor, mas tudo acontecia to depressa que no encontrava um espao 
para colocar os sentimentos.
Em vez disso...
Tocou o rosto to conhecido, absorvendo atravs dos dedos o calor humano de que tanta falta sentira, a realidade da pele de um homem de verdade, de um amante de 
carne e osso.
Assustada, recuou um passo interrompendo o contato. = Voc me quer - ele afirmou.
  Annie assentiu, entorpecida com a fora do que estava vivendo. O momento de seu encontro com o destino finalmente chegara. Sentia-se tonta, abalada e apreensiva. 
O silncio e a tenso se estendiam como uma fina camada de gelo sobre guas profundas e perigosas, convidando os mais incautos a desafiarem seus riscos.
- Venha.
  Ela o obedeceu sem hesitar, mergulhando em seus braos e sentindo o calor envolvente do corpo musculoso. O ar escapou de seus pulmes numa nuvem morna quando os 
lbios buscaram os dela para um beijo ntimo e mido. - Oh, sim... voc me quer...
Ouviu as palavras sensuais murmuradas contra sua boca, a voz carregada de satisfao e orgulho masculino. A plvis pressionada contra a dela era a confirmao da 
paixo que os incendiava. O beijo foi como uma declarao de posse, e Annie gemeu sentindo a prpria vulnerabilidade, lamentando sua falta de experincia e conhecimento. 
E no entanto, de alguma forma sabia o que tinha de fazer. Reconhecia cada passo daquele caminho.
Ele interrompeu o beijo para provar o sabor de um seio, os dedos afastando as roupas que os separavam do objetivo com um misto de habilidade e rapidez irresistveis. 
Faminto demais para esperar, ele beijava um seio enquanto acariciava o outro atravs do tecido fino do suti.
Por um momento ela teve a sensao de que morreria de prazer. Com os olhos fechados, viu novamente por trs das plpebras o mesmo cenrio branco e brilhante que 
conhecera quando estivera to perto da morte; puro, intenso, ardente, envolvente, profundo... como o melhor tipo de amor que um ser humano podia conhecer. Assustada, 
abriu os olhos e concentrou-se na cabea morena debruada sobre seu peito. A pele suave da nuca exposta era uma contradio ao que estavam vivendo,  natureza. ertica 
daquele encontro. Ali era possvel ver um menino vulnervel, uma criana... o filho que um dia teriam...
De repente ela parou, tensa, como se a idia houvesse acionado algum mecanismo emperrado em sua memria. A dor, intensa a ponto de provocar uma imobilidade protetora, 
ia aos poucos enfraquecendo, mas ainda tinha o poder de assust-la.
- O que foi? Est arrependida? - A pergunta soou to brusca quanto o movimento com que ele ergueu a cabea. Havia algo de sombrio em seus olhos, uma expresso que 
a fez desviar o rosto. Um estranho desconforto ameaou domin-la, uma dor de origem desconhecida que ela tratou de sufocar. Nada poderia apagar o brilho daquele 
encontro mgico. Absolutamente nada.
- Eu... - comeou hesitante, tentando encontrar as palavras certas para expressar o que sentia, para pedir sua ajuda a fim de aplacar a onda de dor que ameaava 
crescer em seu peito.
Mas, em vez de ouvi-Ia, ele balanou a cabea e disse: - Pensei que quisesse ir para a cama comigo. E isso que quer, no, Annie?
Annie! Ele sabia seu nome!
  - Eu... Sim,  isso que quero - conseguiu responder com voz trmula. - L em cima... no quarto... no quarto... - Sei a que quarto se refere.
  Devia estar imaginando a raiva contida por trs de cada palavra.
  Subiram a escada juntos, lado a lado, abraados. Na metade do caminho ela parou, buscando automaticamente a janela de onde era possvel ver o rio.
  - Esta casa foi construda por um capito de fragata - disse.
- Sim, eu sei.
- Eu... sonho com ela ocasionalmente - revelou, escolhendo as palavras para contar sua experincia. - Com a casa... com o quarto... e com voc.
Ele a abraou com mais fora. Terminaram de subir os ltimos degraus e pararam na porta do quarto antes que ele fizesse a declarao que inundou seu corpo de alegria. 
- Tambm sonho com voc.
  Ento no estava sozinha em sua crena... no reconhecimento elementar.
  - Quer dizer que tambm me reconheceu naquela noite... no restaurante?
  A resposta foi um movimento afirmativo de cabea, um gesto brusco, quase relutante. Ele tambm sentia medo. Oh, como o amava! E como queria proteg-lo de todo 
sofrimento.
  - Vai ser muito bom... - Annie prometeu com ternura. - Seremos felizes...
  No interior do quarto, tudo era exatamente como em seus sonhos. As janelas largas com vista para o rio e para as montanhas, o piso de madeira polida, as paredes 
nuas, a cama...
  Annie estremeceu ao v-Ia, os olhos fixos na conhecida armao de ferro trabalhado que formava a cabeceira. A cama era maior que a dela, coberta por roupas brancas 
de linho tradicional. Podia quase sentir o perfume da lavanda nos lenis.
- Esta cama... - comeou com voz rouca.
  -  uma cama de casal - ele completou apressado, revelado uma certa amargura. Depois tomou-a nos braos com um desejo e uma urgncia que a surpreenderam. - Beije-me. 
Voc sabe como deve fazer.
Annie acatou a exigncia, buscando apenas o prazer que poderia encontrar enquanto o satisfazia. Entreabrindo os lbios, deixou que ele a invadisse sem oferecer resistncia, 
antecipando a imitao do ato de amor. Ansiosos, comearam a despir um ao outro, as mos dela revelando uma habilidade que jamais imaginara possuir. 
  No havia nada a temer. Conhecia aquele homem dos sonhos, e sabia que ele tambm a conhecia. No havia um nico milmetro de pele que no houvessem tocado e explorado.
  Mesmo assim... uma certa timidez se fez presente. Uma espcie de nervosismo tipicamente feminino, algo que estava transmitindo atravs dos dedos que a acariciavam. 
- Est com medo...
  Era quase como se a idia o agradasse, e Annie sentiu a tenso ganhar fora.
  - No - respondeu, o corpo e os olhos inundados por uma sbita e inexplicvel suavidade. - Como posso ter medo... de voc?
  De repente sentiu que, sem querer, havia libertado um poder desconhecido, uma fora primitiva que ia alm da capacidade de controle de ambos. Sem dizer mais nada, 
ele a pegou nos braos e levou-a para a cama, os olhos cheios de promessas ardentes e sensuais, o rosto corado pela paixo.
  Annie estendeu a mo para toc-lo. Um gemido rouco escapou de sua garganta e ele virou a cabea para capturar seus dedos com a boca, lambendo a palma delicada 
enquanto a fitava tentando decifrar suas reaes.
O prazer era envolvente e intenso..
  - Sim, sim... Oh, sim... - gemeu, o corpo buscando o dele, tentando acomodar as mos que buscavam regies cada vez mais ntimas e sensveis. Se fechasse os olhos, 
poderia sentir sua necessidade e o calor que emanava do corpo msculo. J conhecia o sentimento despertado pela posse completa, pela invaso ertica. Se vivia em 
realidade o que antes conhecera em sonhos... No fazia diferena. A experincia no era nova. - Eu quero voc... - murmurou, terminando de despi-lo para poder sentir 
cada poro de pele quente.
A paixo a impelia a cometer atos ousados. Enquanto o tocava, ia explorando o corpo bronzeado e deliciando-se com o prazer que via nos olhos dele. No sabia de onde 
havia tirado a idia, mas algo a fez levar um dedo aos lbios antes de desliz-lo sobre um de seus mamilos.
  - Annie, pare... No sabe o que est fazendo comigo... - ele comeou, deixando a frase morrer num gemido. Inflamada com a demonstrao de desejo, Annie tentou 
tocar com os lbios a regio que havia acariciado com os dedos, mas ele a agarrou pelos pulsos e empurrou-a contra o colcho.
  O jeans que ela havia desabotoado estava mais baixo, revelando parte da cueca branca e a evidncia de seu desejo. Com a boa seca, Annie esperou... desejou... implorou 
em silncio pela saciedade.
  Nem mesmo nos sonhos havia sido daquela maneira, to intenso, to imediato, to complexo. De repente compreendia que os sonhos haviam sido apenas uma sombra apagada 
do que seria a realidade.
- Voc me quer - ele repetiu.
  Annie sorriu. Sentia-se to poderosa, to feminina, to confiante... Com delicadeza, libertou-se das mos que a imobilizavam e despiu a prpria cala, desnudando-se 
diante dos olhos famintos. Depois repetiu o gesto com ele, levando as mos ao minsculo tecido branco que a impedia de apreci-lo por completo.
- Sim, faa isso... faa isso...
  As palavras eram uma ordem e uma splica, e Annie as acatou de imediato. O sorriso desapareceu de seus lbios, banido pela onda de emoes provocada pela viso 
do corpo nu.
  Sonhos eram... apenas sonhos. E ali vivia a realidade. Dor e prazer se misturavam em medidas iguais. Sem pensar no que fazia, ela o abraou e encostou o rosto 
no dele, deixando que as lgrimas molhassem a pele morena. - No.
A rejeio firme a assustou. Confusa, sentiu que era empurrada com determinao. Encarou-o e viu uma emoo to poderosa em seus olhos, que por um momento no soube 
o que fazer. No conseguia raciocinar, nem articular o que gostaria de dizer.
Esqueceu as mos que apertavam seus braos, a rejeio e o choque causado por ela. No rosto desprovido de cor, os olhos azuis cintilavam com um sofrimento to evidente 
que era impossvel no reconhec-lo.
Era como olhar para sua alma e ler as mais fortes e assustadoras emoes, sentimentos que podiam enfraquec-lo e torn-lo vulnervel. Dor, angstia, raiva, carncia, 
necessidade. Podia ver cada uma delas, e testemunhar o momento de fragilidade fazia seu corao transbordar de amor e ternura.
No conseguia compreender sentimentos to fortes e contraditrios. Mas sabia que ele precisava de seu conforto, e por isso estendeu os braos para proteg-lo no 
interior de um casulo de amor.
As lgrimas continuavam brotando de seus olhos.
  - Amo voc - confessou com a voz embargada. - Sempre o amei e sempre o amarei.
Algo brilhou nos olhos dele, uma resposta to rpida que desapareceu antes que Annie pudesse reconhec-la. Mas era impossvel no ouvir a fria na voz descontrolada.
- Como pode dizer tal coisa?
  Estava zangado... questionando seu amor. Por qu, se devia senti-lo, se conhecia sua profundidade, se...
  - Voc no me quer? - indagou, o queixo tremendo e o rosto corado.
Ele olhou para o prprio corpo antes de responder: - O que voc acha? E evidente que a quero! E sei que tambm me quer. - Desse momento em diante, assumiu o comando 
da situao, beijando-a com uma ternura que era ao mesmo tempo ertica e ingnua. Annie pressionou o corpo contra o dele, sentindo a pele nua e quente e correspondendo 
sem reservas. 
  Precisava estar com ele, senti-lo, tocar a realidade. Os sonhos j no eram o suficiente.
  A experincia foi muito alm dos sonhos. Juntos viveram a essncia da unio absoluta entre dois seres humanos. Havia sonhado tanto com aqueles momentos de intimidade, 
que julgara saber tudo sobre ele. E em alguns sentidos no se enganara. Estivera preparada, pronta e ansiosa para receb-lo graas a esse conhecimento. Mas em outros 
aspectos...
  Um gemido abafado escapou de sua garganta quando viu os corpos entrelaados e satisfeitos. Tomada por uma espcie de adorao, virou o rosto para beij-lo, as 
mos estendidas em sua direo diante do breve sinal de hesitao. No podia aceitar ou permitir nenhum receio depois do que haviam acabado de experimentar, depois 
do xtase completo e envolvente que os sacudira em espasmos sucessivos, depois da exploso de calor e prazer que os levara ao ponto mais alto do arco-ris, a um 
paraso onde existiam apenas as mais belas e doces sensaes.
  Sentindo ainda a languidez produzida pelo orgasmo violento, tentou expressar a felicidade que a inundava, mas era impossvel encontrar palavras que pudessem traduzir 
os sentimentos. Em vez disso, beijou-o e sorriu.
  - Amo voc - repetiu. - No havia percebido... Antes voc era apenas um sonho para mim, e pensei que esses sonhos fossem maravilhosos e perfeitos demais para serem 
reproduzidos pela realidade, mas agora... Agora voc me mostrou que a realidade  muito mais completa. - Com os olhos cheios de lgrimas, levou os dedos dele aos 
lbios e beijou-os. - Obrigada. Muito obrigada, meu amor... meu verdadeiro amor... meu nico amor...
Se lamentava no ouvir palavras de retribuio, ao menos tivera a possibilidade de sentir fisicamente a certeza daquele amor. Alm do mais, sabia que os homens se 
tornavam tmidos quando tinham de expressar seus sentimentos abertamente. 
  A ltima coisa que pensou antes de adormecer era que no havia no mundo mulher mais feliz que ela.
Olhando para o rosto tranqilo de Annie, Dominic Carlyle tentou compreender como ela podia dormir to profundamente, sem ser atormentada pela culpa.
Furioso, afastou-se dela e comeou a recolher as roupas espalhadas pelo quarto.
Bem, Annie podia dormir nos braos da paz, mas ele era incapaz disso. O que o possura? Aquela mulher no tinha mais nenhum significado em sua vida. E como poderia 
ter? De olhos fechados, a boca comprimida enquanto tentava banir da mente a expresso em seu rosto pouco antes de adormecer, logo depois de ter beijado seus dedos 
e pronunciado aquelas palavras inesperadas, engoliu em seco. Havia sido apenas uma encenao, como tudo que ela fizera antes. No havia outra explicao para o estranho 
comportamento.
  No meio do caminho para a porta, parou e olhou para trs, para o corpo adormecido em sua cama. Ela se mantinha encolhida, como se ainda estivesse aninhada em seus 
braos.. Mesmo dormindo, tinha de continuar fingindo. Por qu? O que a levava a ser assim? Toda aquela conversa absurda sobre destino, todos os gestos grandiosos...
  S havia uma maneira de descobrir a verdade. Teria de interrog-la de forma direta e franca.
Ao passar pela porta a caminho do quarto de hspedes, balanou a cabea, surpreso com a coragem da mulher que dormia em sua cama. Voltar a invadir sua vida como 
se nada houvesse acontecido... como se todos os anos anteriores nunca houvessem existido.




           Captulo 4
           
           Irritado, Dominic sentou-se na cama e consultou o relgio. Quatro horas da manh. No conseguiria voltar a dormir. Estava tenso, agitado, a mente dominada 
por lembranas e por sentimentos de raiva e rancor.
  Mal conseguira acreditar quando a vira no restaurante onde jantava com os executivos da Petrofiche, a companhia para a qual passara a prestar consultoria como 
bilogo martimo. E depois, quando ela chegara em sua casa...
  Sabia sobre seu retorno? Nunca tivera a inteno de conservar a propriedade, mas o trabalho no Oriente Mdio o mantivera fora do pas por algum tempo, durante 
um perodo em que os preos haviam estado em declnio no mercado imobilirio. S deixara de vender a casa porque pretendia esperar por uma oferta razovel. Depois, 
quando aceitara a proposta de trabalho que representaria um grande salto em sua carreira, apesar de ter de voltar ao local onde conhecera Annie, decidira aproveitar 
a sada dos ltimos inquilinos e instalar-se novamente no imvel.
Mas... como ela fora capaz de aproximar-se novamente? O corpo ainda queimava com a lembrana dos momentos de amor. Amor? No. O que fizera havia sido apenas um ato 
mecnico, um comportamento absolutamente natural de buscar satisfao para uma necessidade fisica. Sexo. Sim, esse era o nome. Annie... Fechou os olhos para conter 
uma onda de tristeza.
  Naquela noite ela agira e falara como se... O qu? Toda aquela bobagem sobre destino e amor! No podia esperar que ele acreditasse... No podia imaginar que seria 
capaz de convenc-lo...
  Furioso, levantou-se e caminhou nu at a janela. A casa era isolada o bastante para garantir a mais completa privacidade. E quem poderia pensar em roupas depois 
de uma experincia to devastadora?
Annie!
  Quase cinco anos haviam se passado desde que a conhecera. Ela, uma jovem de dezoito anos. Ele, quase dez anos mais velho, porm mais vulnervel. Apaixonara-se 
quase que  primeira vista, e depois a seguira at a penso barata onde ela se hospedava.
  Annie ficara confusa e apreensiva quando a abordara, tentando demonstrar uma sofisticao que no possua, uma capacidade de controle que s a maturidade poderia 
proporcionar. Ficara encantado com sua ingenuidade, ansioso para tom-la nos braos e proteg-la, talvez preveni-la contra os perigos de se deixar atrair por um 
homem como ele.
  Vrios dias mais tarde, depois de muita persistncia e pacincia, conseguira convenc-la a aceitar um convite para sair. Annie sugerira um caf e escolhera uma 
mesa prxima da janela. Lembrava-se de ter aplaudido sua cautela, enquanto uma parte mais elementar e machista de sua personalidade lamentara no poder lev-la a 
algum lugar mais tranqilo. Mas, como nunca fora um homem das cavernas, aceitara a imposio de permanecerem em um local pblico.
  Naquele primeiro encontro conversaram sobre muitas coisas. Quatro horas depois de t-la ido buscar na penso, ele a levara de volta e arrancara da jovem ingnua 
a promessa de que sairiam outras vezes.
Apaixonar-se no fazia parte de seus planos, especialmente por uma jovem de dezoito anos s portas da vida adulta e no primeiro semestre da universidade, mas os 
sentimentos por Annie o pegaram de surpresa, causando um choque e uma confuso que haviam impedido qualquer tipo de reao de sua parte.
  Antes de conhec-la havia assinado um contrato de prestao de servio para um sulto de um pequeno estado rabe no Oriente Mdio. Em termos profissionais, a oportunidade 
era nica e valiosa, e por isso a agarrara' com ansiedade e entusiasmo.
  Os poucos meses que precederam a viagem deveriam ter sido empregados na soluo de questes prticas, como o que faria com sua casa em Wryminster durante o perodo 
em que ficaria ausente, ou pr em dia as visitas que ficara devendo aos amigos que residiam na rea rural.
  A lgica apontava para a venda do imvel, um lugar grande demais para um homem sozinho, mas, como Annie, tambm no tinha parentes prximos. Herdara a propriedade 
de uma tia-av, e por isso sentia-se no dever de conserv-la.
Srio, afastou-se da janela.
  Uma semana depois de ter conhecido Annie, soubera que estava apaixonado por ela. Mais uma semana, e compreendera que a nica soluo seria casar-se com ela, por 
mais que a conscincia desaconselhasse o gesto.
  Annie era jovem demais para o compromisso exigido pelo matrimnio, inexperiente demais para uma escolha to definitiva e sria. Mas tambm era sozinha, vulnervel, 
e vira em seus olhos a dor e o medo da rejeio na noite em que a informara sobre sua iminente partida para o Oriente.
     amor que Annie jurara sentir por ele no passara de uma paixo adolescente. E quem poderia culp-la por ter confundido os sentimentos? Sempre soubera de sua 
inexperincia, de sua instabilidade, e mesmo assim insistira no envolvimento.
Furioso, cerrou. os punhos. O que estava fazendo? Por que ainda tentava justificar seu comportamento?
  Annie era muito jovem, mas devia ter percebido que o que sentia por ela era algo mais profundo e maduro. Nunca escondera a intensidade de seu amor. E mesmo assim 
ela o abandonara sem nenhuma explicao, sem sequer permitir que falasse com ela e tentasse... o qu? Convenc-la a ficar?
  Repetira aquela discusso silenciosa dezenas de vezes, e ainda no conseguira encontrar, respostas. Se era culpado por t-la apressado com relao ao casamento, 
Annie tambm tinha culpa por no ter sido franca, por no ter dito claramente que queria a separao. Assim teria... Droga! O que teria feito? Usado o poder da atrao 
sexual para faz-la mudar de idia? Teria ido to longe? Ou teria sido forte o bastante para pr as necessidades dela em primeiro plano e aceitado a separao?
  Gostava de acreditar na ltima hiptese, mas Annie devia ter imaginado o contrrio e temido no ser capaz de resistir ao desejo. Esse era um sentimento sobre o 
qual jamais existira dvidas. Nunca experimentara nada parecido antes de conhec-la, nem depois dela. Mas depois de Annie, nunca mais desejara sentir algo parecido. 
Depois dela, essa parte de sua natureza, de sua vida...
  Irritado, reconheceu os pensamentos e alterou seu curso. Ele a levara at aquela casa pela primeira vez depois de uma longa caminhada pela margem do rio. Prometera 
leva-la de volta  penso e estivera disposto a cumprir a promessa. Mas, quando estavam chegando na propriedade, a chuva comeara a cair forte. Nenhum dos dois sara 
prevenido, e o mais lgico havia sido buscar refgio em sua casa.
nnie ficara espantada e fascinada com a amplido do lugar, e ainda lembrava como ela protestara insistindo que os sapatos molhados arruinariam o piso de madeira. 
Tambm notara o evidente sentimento de inferioridade e sofrera por isso. A fim de ajuda-la a relaxar, comeara a contar parte da histria da casa e de seu primeiro 
proprietrio.
  Ela se encantara com os golfinhos, traando o desenho delicado com a ponta de um dedo, os olhos brilhando enquanto ela o encarava e comentava a beleza do trabalho 
artesanal.
Havia sido naquele momento que desistira de lutar contra os sentimentos por ela, incapaz de resistir ao impulso de tom-la nos braos e am-la. Annie era virgem 
quando a amara pela primeira vez. Uma menina. Mas no havia sido uma menina que se deitara em sua cama horas antes. No, agora ela era uma mulher... Podia sentir 
o corpo tenso, reagindo. Quando as mos comearam a tocar e acariciar sua pele...
  Dominic balanou a cabea com vigor, mas nada era capaz de apagar as lembranas.
Depois da caminhada que fora concluda sob um violento temporal, insistira para que ela ficasse e jantasse com ele.
- O que gostaria de comer? - indagara.
  Tmida e insegura, ela respondera encolhendo os ombros. Todas as vezes em que saram para comer em um restaurante, ela buscara sua orientao com os olhos antes 
de optar por uma das sugestes do cardpio, mas s .naquela noite, depois de pression-la para que escolhesse um prato qualquer, ela confessara que a maneira como 
fora criada no a preparara para o estilo sofisticado de vida de que ele desfrutava.
  Antes haviam falado rapidamente sobre sua infncia, mas naquela noite Annie oferecera mais detalhes, especialmente depois do vinho que Dominic abrira para acompanhar 
a refeio.
Seus pais tambm haviam morrido quando ainda era pequeno, e a ausncia da me era uma experincia em comum. Mas era neto de pessoas muito ricas, e apesar de ter 
considerado os cuidados distantes e frios e ter sido educado em um colgio interno muito formal, nunca passara por nada parecido com o que Annie enfrentara. Jamais 
tivera de pensar no prprio sustento.
  Depois da emocionante confisso, passara a sentir de forma ainda mais intensa a necessidade de proteg-la, e ficara admirado com o fascnio estampado nos olhos 
dela durante a rpida visita ao mercado local, onde foram comprar os ingredientes para o jantar. Tomado por uma espcie de instinto paternal que nunca imaginara 
ter, percorrera os corredores explicando a origem e a utilidade de cada ingrediente que ia colocando no carrinho, dizendo tambm como eram preparadas e saboreadas.
  - Mas quem vai cozinhar? - Annie havia indagado depois de ouvi-lo.
- Eu.
E Dominic cozinhara.
  Antes de conhec-la, sempre havia se considerado um solteiro convicto cujo principal foco era a carreira. Desde a infncia sonhara tornar-se bilogo martimo 
e seguir os passos dos pais, um casal que trabalhara e morrera unido em um acidente no litoral das ilhas Maurcio.
  Gostava de mulheres. Oh, sim, apreciava o sexo oposto. Mas preferia relacionar-se com suas representantes mais adultas e sofisticadas, porque essas entendiam que 
seu interesse no inclua um relacionamento permanente.
  Com Annie, no entanto, esses sentimentos haviam mudado. No a queria apenas na cama. Queria t-la a seu lado para sempre, em todos os momentos de sua vida.
  Depois do jantar foram para a sala ntima, onde a - convencera a falar sobre seus sonhos e esperanas enquanto a alimentava com morangos cobertos com, chocolate 
intercalados com pequenas pores de champanhe.
Depois de comer um fruto mais suculento, Annie ficara 'com o canto da boca sujo de chocolate, e ele se inclinara para limp-lo com os dedos. O corpo reagira imediatamente 
ao contato, e no pudera mais conter o desejo de beij-la. Ela o fitara com uma mistura de ansiedade e incerteza.
- Tudo bem - murmurara a fim de tranqiliz-la. - No vou machuc-la... 
  Machuc-la! Dominic riu com amargura. Que piada! Mas, naquela poca, no podia imaginar o que aconteceria. Ela se mostrara to ingnua, to doce e amorosa!
  Haviam ido para a cama pela primeira vez um ms depois de terem se conhecido, e ele a estimulara a despir as inibies junto com as roupas. No final, havia sido 
ele quem estivera prximo de perder o controle, incapaz de dominar o que sentia ao toc-la.
  Seis semanas depois do primeiro encontro haviam se casado, e duas semanas mais tarde ela o abandonara. Fora totalmente honesto com Annie desde o incio. Nunca 
escondera que em breve teria de partir para assumir um novo trabalho no Golfo, e tambm deixara claro, pouco antes do casamento, que no poderia lev-la naquela 
viagem. - Quanto tempo vai passar fora? - ela havia perguntado. - Assinei um contrato de trs anos, mas terei vrios perodos de licena. Por exemplo, terei um ms 
em casa na poca do Natal, e depois mais dois no vero. E voc tem a faculdade para ocup-la. O tempo vai passar depressa.
- Tem certeza de que quer se casar comigo?
  -  claro que sim - ele respondera, sem se dar conta de que as dvidas eram dela.
  - Tem mesmo certeza de que deseja se casar comigo? - Annie pressionara em outra ocasio.
  Mais uma vez, no entendera a pista que ela oferecia. No compreendera que devia devolver a pergunta.
Por isso respondera com firmeza. - J disse que sim. Eu amo voc. - Mas somos to diferentes...
  -  verdade. Voc  uma mulher, eu sou um homem - rira.
- Sabe que estou me referindo a outras coisas. Vai dizer que o que importa  a essncia do ser humano, e concordo com isso, mas outras pessoas fazem julgamentos, 
e fomos criados de formas to diferentes que... Oh, eu nem sei quem so meus pais, e...
- Nada disso tem importncia.
- No? Seus amigos, seu estilo de vida... - Minha vida  voc, Annie.
- Eu? Como, se nem estar aqui? - Voc sabe que no tenho escolha. - Sim, eu sei.
  E Dominic sentira-se culpado pelo sofrimento que vira em seus olhos. Desde o incio soubera que no poderia deixar de cumprir o contrato com o sulto rabe. Apesar 
disso, tentara consol-la.
  - Sei que vai ser difcil para ns dois, mas outros casais conseguem superar longos perodos de separao. - Eu sei. As vezes tenho a impresso de que meu destino 
 estar sempre sozinha.
- Voc no estar sozinha - ele insistira.
  Mas os olhos de Annie permaneceram tristes, desolados. - Talvez seja mais fcil viver sem esses sentimentos to envolventes. Sem amar algum - ela opinara mais 
tarde. Havia sido a partir daquela concluso que comeara a afastar-se? Mas ela se mostrara to feliz no casamento, to apaixonada! Ou o fato de ser dez anos mais 
velho o levara a crer que sabia o que era melhor para ela?
  Era forado a reconhecer que os anos anteriores e o sofrimento promoveram grandes mudanas. Jamais poderia entender como ela tivera coragem de abandon-lo sem 
ao menos oferecer uma explicao, mas a amargura havia se transformado em uma espcie de aceitao mais racional. Mesmo assim, parte dele ainda precisava de respostas 
para as questes que ela deixara em sua vida.
Os pensamentos voltaram ao passado. Annie havia se casado com ele. Tivera de cumprir uma srie de formalidades e tomar muitas providncias, como notificar as autoridades 
e providenciar toda a documentao. At as alianas que comprara tiveram de voltar  joalheria para ajustes, porque o dedo dela era to delicado que o menor anel 
ficara largo.
  Dominic a carregara at a cama naquela primeira noite de casados e a amara com as janelas abertas para que pudessem ouvir os sussurros do rio e do vento. O clmax 
fora to intenso que Annie gritara, um som agudo e feminino que ecoara no silncio da noite. Por um instante o tempo havia parado, como se todo o universo reconhecesse 
a fora daquele amor. Pelo menos havia sido essa a sensao que experimentara.
Mais tarde ela chorara, e Dominic tambm ficara com os olhos cheios de lgrimas emocionadas. Mas, quanto mais se aproximavam da data da partida, mais ela se tornava 
triste e retrada, plantando nele a semente da culpa por saber que era responsvel por todo aquele sofrimento. Afinal, no medira esforos para persuadi-Ia a aceit-lo 
como marido, e agora, alm do prprio sofrimento por ter de partir, teria de conviver tambm com a lembrana daquele olhar aflito e deprimido.
  E ento, numa certa noite, tiveram a primeira e fatdica discusso.
.        O dia havia sido quente, e Dominic sentia-se irritado com o calor e com as circunstncias. Temia o momento de deix-la, e j comeava a considerar a hiptese 
de romper o contrato com o sulto e procurar por outro trabalho mais perto de casa. Mas... onde? Em uma das companhias de petrleo que operavam no Mar no Norte?
  No Golfo estaria no comando de uma equipe de mergulhadores e bilogos contratados para verificarem os efeitos da poluio sobre a fauna e a flora local. Era uma 
oportunidade nica de participar de uma pesquisa que era o sonho de todos os profissionais de sua rea. Pretendia publicar um artigo com suas descobertas assim que 
conclusse o trabalho no Oriente, e sabia que jamais teria outra chance como aquela.
Mas odiava a idia de afastar-se de Annie. Passara as trs noites anteriores ouvindo seu choro aflito no meio da noite, e havia uma tenso entre eles que nenhum 
dos dois era capaz de dissipar.
  Annie comearia o primeiro semestre na universidade uma semana depois de sua partida, e naquele dia, tentando abrir um novo assunto que no estivesse relacionado 
a sua viagem, ele passara a tarde falando sobre todas as opes profissionais que teria depois de concluir o curso.
  - No sei mais se quero ir para a universidade - ela confessara em voz baixa. - Afinal, agora estamos casados e... bem, quando tivermos filhos...
  - Filhos! - Dominic interrompera. Nunca haviam discutido se teriam ou no uma famlia. A experincia da prpria criao, a crena infantil de no ter sido importante 
o bastante para os pais e a compreenso madura das exigncias do trabalho que havia escolhido... Bem, tudo o levava a entender que nem todos os seres humanos estavam 
aptos a assumirem a responsabilidade de uma nova vida, e a maior questo era saber se no era um desses incapazes.
  Pelo visto, Annie tinha um ponto de vista completamente diferente do dele, e precisava faz-la compreender que precisavam de tempo para ajustar o relacionamento 
e conquistarem uma certa estabilidade matrimonial antes de pensarem em filhos.
  No havia a menor possibilidade de se tornarem pais enquanto estivesse preso ao contrato no Oriente. No queria que seu filho passasse por tudo que havia sofrido 
na infncia.
  - No quer ter filhos? - ela exclamara chocada. - Mas... por que no?
- A paternidade no se limita a ter um beb, Annie. A deciso de ter filhos envolve... - Tentara encontrar as palavras certas. - Envolve uma grande responsabilidade. 
Quando criamos um ser humano no estamos dando a ele apenas a vida. Estamos tambm impondo a essa criatura nossa histria pessoal, nossas escolhas e decises. E 
no momento, sinto que no quero sobrecarregar uma criana com todas essas opes. Temos um ao outro... no  o suficiente? Eu me casei para estar com voc, Annie. 
No para ter filhos.
  - Sim, eu sei - ela respondera num tom abafado e triste. - Mas s vezes as coisas acontecem... um beb  concebido sem ter sido planejado e...
  - No conosco - Dominic negara de imediato. - Eu no... - E havia parado para encara-la. - Do que estamos falando, afinal? No  possvel que esteja grvida.
  Uma das primeiras providncias que tomara desde o incio do relacionamento havia sido a de garantir que ela no teria de preocupar-se com mtodos anticoncepcionais, 
porque ele se encarregaria da proteo. Ficara emocionado quando, tmida, Annie confessara que havia lido em algum lugar que o sexo poderia dar mais prazer se ele 
no tivesse de usar nada, e por causa disso ela assumira a responsabilidade pela contracepo.
  Aceitara a mudana sem questiona-la, movido pelo desejo de senti-Ia integralmente sem a barreira artificial da proteo.
  - No podemos ter nenhum acidente, Annie - repetira com firmeza.
- E se tivermos?
  Seu rosto estivera corado e os olhos expressavam determinao. Normalmente no debatiam pontos polmicos, e a ltima coisa que queria quando dispunham de to pouco 
tempo juntos era discutir uma suposta gravidez. Levando os dedos  tmpora, massageara a regio onde um latejar constante o incomodara durante todo o dia.
  - Se tivermos, tomaremos a deciso mais sensata e interromperemos a gravidez.
  - Aborto? - ela gritara com o rosto plido. - Est dizendo que espera que eu tire a vida do nosso filho? - Annie, pelo amor de Deus, no seja dramtica - ele pedira 
impaciente. - Quando chegar o momento, voltaremos ao assunto e faremos planos racionais para uma famlia. At l, seria loucura pensarmos em termos filhos. Olhe 
para voc! Ainda  uma criana!
- Mas era uma adulta quando quis me levar para a cama e me pediu em casamento. E estamos falando do meu corpo. Meu, ouviu bem? E se h uma coisa de que tenho certeza, 
Dominic,  que nunca, absolutamente jamais, eu seria capaz de destruir uma vida em meu ventre. E se tentar obrigar-me, ento... ento...
  - Ento o qu? - ele explodira exasperado. O latejar persistente havia se transformado em uma violenta dor de cabea.
- Ento o deixarei.
  - Deixar-me? No seja ridcula! Isso  infantil, Annie. Estamos casados h menos de um ms. Voc no est grvida e...
  - E se estivesse? Voc insistiria para que eu me submetesse a um aborto, certo?
Dominic havia suspirado.
- No podemos ter um filho agora. - Por que voc no quer?
  - Voc sabe em que posio eu estou. Preciso pensar na minha carreira e...
  - Oh, sim, sua carreira! No devo me esquecer dela, no ? Nada, ningum pode interferir em sua preciosa carreira! Naquele momento compreendera, ou pensara ter 
compreendido, o que estava errado. Como ele, Annie temia a separao e buscava defesas contra a dor.
  - Vamos parar com essa tolice - dissera, abrindo os braos numa oferta de paz.
  Mas, em vez de aceit-la e mergulhar no abrao, Annie recuara um passo, o rosto e o corpo gelados numa demonstrao de desdm.
  - Sexo...  s nisso que sabe pensar, Dominic? Lamento, mas no estou com a menor disposio.
E partira, deixando-o boquiaberto e dividido entre a raiva e o riso.
No havia visto a esposa demonstrar toda aquela altivez antes, nem tamanha obstinao, refletira mais tarde, quando ela recusara todas as tentativas de aproximao. 
Irritado com a demonstrao de imaturidade e com  a prpria dor de cabea, acabara encolhendo os ombros. - Se fosse voc, tentaria crescer um pouco antes de pensar 
em ter filhos - havia disparado.
  Naquela noite, pela primeira vez desde o casamento, dormiram sem se tocar. Por vrias vezes Dominic se sentira tentado a estender a mo e acarici-la, a encerrar 
a discrdia com uma declarao de amor e uma confisso sobre como temia ter de deix-la. Mas era um homem orgulhoso, e precisava sentir que ela tambm o queria, 
que era mais importante para ela do que uma criana que ainda nem havia sido concebida.
    Mas Annie no tomara a iniciativa de aproximar-se, e . no foral, por conta da dor de cabea que ameaava enlouquec-lo, tomara os analgsicos que mantinha em 
casa para esses momentos e dormira at tarde na manh seguinte.
  Quando conseguira superar o sono profundo induzido pelo medicamento, Annie havia partido.
Para nunca mais voltar...
  A princpio havia imaginado que ela fora at a cidade para fazer compras, mas depois de ter passado o dia todo esperando em vo, comeara a compreender que ela 
no retornaria.
  Vasculhara as ruas da cidade e o campus da universidade, mas no encontrara nenhum sinal dela. Desesperado, visitara a penso onde ela vivera antes do casamento, 
mas a dona havia partido em uma viagem de frias com o marido, e a prima que ela deixara em seu lugar nem reconhecera a descrio de Annie.
  Dominic passara noites em claro, esperando ouvi-Ia entrar em casa, mas nada havia acontecido.
Uma semana se passara sem nenhum sinal dela, e Dominic comeara a acreditar no impossvel. Annie o abandonara, e tudo por causa de uma discusso estpida.
Tentara lembrar que ela era apenas uma criana de dezoito anos. A reao exagerada era compreensvel e perdovel. Annie voltaria assim que superasse a mgoa. O amor 
que os unia era forte demais para que continuasse longe dele.
Dez dias mais tarde, na vspera de sua partida para o Oriente Mdio, ainda no conseguira aceitar que ela realmente o deixara, que no estava apenas representando 
em uma tentativa tola de castiga-lo. Alimentara a esperana de v-Ia at o ltimo minuto, at a ltima chamada para o embarque, e decolara levando com ele essa mesma 
esperana, certo de que o casal que ficara cuidando da casa o informaria de seu retorno dentro de alguns dias.
Mas nada disso acontecera, e no final tivera de aceitar que a razo pela qual ela no voltara, a razo que a levara a deixa-lo, era o arrependimento. Lamentava ter 
cometido o erro de se casar com ele e pretendia reparar seu engano.
  Naquele Natal Dominic no voltara para o Reino Unido. Para qu? Comemorara seu aniversrio sozinho no ms de maro, e repetira a experincia nos anos seguintes. 
Tambm havia lembrado sozinho todas as datas especiais, como o aniversrio do primeiro encontro, o da primeira noite de amor, o de casamento...
Os anos passaram, levando com eles o choque e a incredulidade. Tudo que restara era uma irritao natural por no saber o que a levara a partir sem dar explicaes. 
Resignara-se com a dor que o acompanharia para sempre, mas a ltima coisa que esperava era v-Ia voltando como se nada houvesse acontecido. Sem aviso, sem justificativas, 
sem sequer reconhecer ou mencionar o que fizera. E nunca havia esperado testemunhar um comportamento to bizarro.
Tenso, lutou contra a onda de dor que ameaava inund-lo. No passado, quando faziam amor, ele era o tutor, e ela, a discpula. Mas naquela noite... Com a amargura 
que s um homem que amara e fora rejeitado podia sentir, rangeu os dentes contra a ferocidade do cime provocado pela idia dos relacionamentos que ela podia ter 
mantido em sua ausncia.
  Toda aquela bobagem sobre destino, sobre terem nascido para estarem juntos, tudo havia sido ridculo. Annie no podia esperar que acreditasse nela! Ento, por 
que no dissera alguma coisa? Por que no a detivera? Por que no se havia contido? Porque era um homem. Annie no tinha mais nenhum significado especial, nenhum, 
e a primeira coisa que faria quando ela acordasse seria exigir uma explicao para o seu reaparecimento.
Sim. Essa seria sua, primeira atitude. E a segunda seria providenciar o divrcio!





Captulo 5

 Anne acordou sobressaltada e olhou em volta antes de sorrir aliviada, reconhecendo a silhueta recortada contra a luz da janela.
  - No foi s um sonho - disse com alegria. Dominic olhou para ela. Que papel estaria representando agora? Bem, tambm sabia representar.
  - No, no foi um sonho - concordou. - E tenho os arranhes para comprovar a realidade. Quer v-los?
  Ao v-Ia corar e baixar a cabea numa demonstrao de pudor, teve de admitir que ela era uma excelente atriz. Mesmo conhecendo a verdade, no conseguia evitar 
que o corao batesse mais depressa enquanto lutava contra o mpeto de aproximar-se.
  Endurecendo o corao, preparou-se para dizer a ela que estava perdendo tempo tentando confundi-lo, mas antes que pudesse pronunciar as palavras, Annie o surpreendeu.
- Sei que parece tolice, mas ainda no consigo acreditar que tudo isso  real. Que voc e eu somos reais. - O que quer que eu faa para provar que no est sonhando? 
Quer que eu v at a e... - Parou ao perceber que a sugesto, cujo objetivo era coloc-la em seu devido lugar, exercia um efeito indesejado sobre seu corpo. Sabia 
que a desejava no sentido fsico da palavra, mas no a queria de verdade. Mesmo assim, era como se os ps se movessem com vontade prpria, levando-o at a cama e 
para perto de Annie. No. Tudo que queria era certificar-se de que ela no fugiria quando a desmascarasse e exigir uma explicao para o estranho e inusitado comportamento.
  - Preciso me levantar - ela anunciou. - Voc deve ter coisas para fazer e...
  - E voc tambm. Como tem ocupado seu tempo, Annie? O que tem feito com sua vida?
  Por um momento ela reagiu com surpresa, assustada com o tom agressivo. Puxou o cobertor sobre o corpo com tamanha' modstia, que Dominic sentiu-se impressionado.
  - Eu... trabalho para a Petrofiche em regime de meio perodo -= contou hesitante.
  Agora comeava a entender tudo. Por isso ela sabia sobre seu retorno  regio. Devia ter ouvido alguma coisa sobre sua cntratao nos corredores da empresa.
- Meio perodo? - comentou com tom crtico.
  Mas ela no parecia registrar o desprezo em sua voz ou o significado das palavras.
- Oh, isto tudo  um sonho que se realiza - disse. - Nunca pensei... Quando o vi no restaurante naquela noite... No imaginei que isso pudesse acontecer. - Enquanto 
falava, estendeu a mo para tocar a dele, o rosto iluminado por uma alegria radiante e o corpo todo tremendo. - Dizem que a realidade nunca pode corresponder s 
expectativas criadas pelos sonhos, mas no  verdade. Minha realidade... Voc... - Parou para encar-lo com uma emoo to intensa, que Dominic teve de lembrar quem 
era ela, e como era improvvel que estivesse falando srio. - Voc  muito mais que... muito mais do que sonhei ser possvel. Ainda no acredito que tive a sorte 
de encontr-lo... que o destino aproximou nossos caminhos. Sinto-me to... abenoada! Ontem  noite - continuou, puxando a mo dele para faz-lo sentar-se na cama 
-, vivi a experincia mais perfeita e maravilhosa de toda minha vida. E voc foi o responsvel por isso. Eu o amo tanto... 
  Era difcil lembrar que ela mentia, que a emoo era apenas uma farsa, uma encenao para envolv-lo. E Annie ainda no se cansara de representar.
- Oh, cus! Acho que vou chorar. E os homens detestam mulheres choronas, no ?
Apaixonara-se por cada faceta de sua personalidade, especialmente pelo senso de humor, mas, como tudo nela, agora sabia que a riso fcil tambm era uma fico. Por 
isso afastou-se.
- Estou com fome - disse. - Vou descer e preparar o caf.
Era melhor esperar at que estivessem em um ambiente mais neutro para confront-la, disse a si mesmo enquanto se levantava. Mas, consternado, sentiu que ela segurava 
seu brao e o impedia de escapar.
- Tambm estou faminta... por voc.
  - Ah... Quer mais sexo? - Sem parar para analisar a fria ou a maneira como reagia a ela, tomou-a nos braos e beijou-a.
  Annie temia desmaiar. Acordar naquela manh na cama onde havia passado a noite com o homem que amava, saber que ele era real, que o sentimento era verdadeiro, 
era quase mais do que podia compreender. E ser novamente abraada e beijada por ele, sentir aquela energia vibrante, saber que ele a desejava... Queria toc-lo e 
acarici-lo... carcias ntimas... mas ainda sentia vergonha de tomar certas iniciativas.
  A hesitao desapareceu quando ele a empurrou contra o colcho e murmurou:
- Foi voc quem pediu.
  - Eu... sim, eu quero voc - ela sussurrou. - No imagina como o amo...
Dominic puxou o cobertor com um movimento brusco, quase furioso. As mos e as bocas tocaram sua pele nua, acariciando, explorando... Sabia que ele podia v-Ia com 
clareza  luz plida do amanhecer, mas no sentia nenhum  constrangimento. Tudo que sentia era o fogo que fazia sangue ferver em suas veias. Inflamada, tentou toc-lo 
e assustou-se ao ouvir o grito que precedeu o afastamento. - No!
- Est mesmo muito interessado no caf da manh, no ? - brincou, oferecendo um sorriso terno.
  - Vou descer para prepar-lo. - E saiu apressado. Annie o viu partir. O corpo ainda clamava por ele, mas sob a urgncia havia um delicioso contentamento, uma lembrana 
doce e positiva da noite que haviam vivido juntos.
  Foi fcil encontrar o banheiro da sute. Na verdade, tinha a sensao de conhecer todos os recantos da casa. O lugar era to familiar, que em outras circunstncias 
teria recebido o sentimento com certa desconfiana. Mas sabia que tudo fazia parte da espantosa trama do destino, e por isso encarava as emoes com absoluta naturalidade.
  Foi ainda mais fcil encontrar a cozinha, no s pelo instinto que a guiava, mas por causa do delicioso aroma caf e bacon.
- Preparei ovos mexidos para voc. Sei que gosta deles assim.
Annie olhou em volta e sentou-se enquanto o prato de comida era posto diante dela.
  -Eu... nunca como todas essas coisas no caf... exceto... - No Natal e em outras ocasies especiais. Sim, eu sei. Atento, viu a confuso dominar seus traos enquanto 
ela tocava os alimentos com a ponta do garfo.
  - No entendo como pode saber tantas coisas sobre mim sem ao menos nos conhecermos - comeou devagar. Em seguida sorriu. - Mas estou feliz por termos nos encontrado. 
E por voc me amar.
- Pelo amor de Deus; Annie! - Dominic explodiu. - Pare de fingir. A brincadeira acabou. E quanto ao meu amor por voc... O que pensa que sou? Que tipo de tolo imagina 
que sou? De minha parte, s existe uma razo para o que aconteceu entre ns ontem  noite, um motivo que no tem nenhuma relao com amor ou sentimentos mais nobres. 
Eu apenas reagi como um homem normal. Fui tentado, provocado, e no hesitei diante da oportunidade de saciar certas necessidades fsicas.
  Annie o encarava em silncio. Sentia o corao disparado no peito. Os pulmes ardiam como se respirasse gs txico.
  - No entendo - comeou receosa. - O que est dizendo?
  - Chega de fingir, Annie. J disse que no sou nenhum idiota. Toda essa tolice sobre destino... Meu Deus, voc  muito fria. Voltar  minha vida... deitar-se em 
minha cama como se os ltimos cinco anos no houvessem existido...
  Era como se uma enorme pedra a esmagasse lentamente, impedindo o raciocnio, a respirao e todas as outras funes do organismo. Mas a opresso no a impedia 
de sentir a dor e o medo.
  - Por favor - gemeu, tentando recuperar o controle sobre as cordas vocais. - No consigo entender!
- O que pode ser to complexo?
  Era evidente que ele estava furioso, mas no temia sua ira. Era como se no tivesse energia para consider-la enquanto lutava com a enormidade do choque que estava 
sofrendo.
  - Acha que eu entendi quando desistiu de tudo? De mim, do nosso casamento...
Casamento!
  Annie levantou-se e sentiu o quarto girar depressa. Uma voz poderosa penetrou em seus sentidos.
  - Oh, no, nem pense nisso. No vai conseguir escapar fingindo um desmaio. Annie... Annie!
  Ouviu o tom furioso antes de mergulhar no alvio oferecido pela completa escurido.
Quando recobrou a conscincia estava sentada, desta vez numa confortvel poltrona em uma sala bem mobiliada. Como os outros cmodos da casa, aquele tambm era vagamente 
familiar.
  O medo tornava-se mais intenso. E tambm um sentimento de... de... No sabia identificar o que sentia, mas era algo terrvel.
  - Eu... Ns... No podemos ser casados - sussurrou com dificuldade. - No o conheo! Nem sei qual  o seu nome!
Por um momento pensou que ele fosse agredi-Ia, tal a intensidade de sua fria, mas quando se encolheu, ele recuou e riu.
- Essa  boa! Ontem  noite disse que o destino havia nos unido, que eu era seu nico e verdadeiro amor, e agora est tentando me convencer de que nem sabe quem 
sou. Diga-me, Annie, tem o hbito de ir para a cama com desconhecidos? Esta  outra parte de sua personalidade que eu no conhecia? Como a tendncia de desaparecer 
sem dar explicaes? Por acaso parou para pensar no que eu senti?
  Era um pesadelo! Sim, agora compreendia! O sonho havia se transformado em um terrvel pesadelo.
- No podemos ser casados!
  - Quer uma prova? - E caminhou at uma escrivaninha em um canto da sala. De uma gaveta retirou uma pequena caixa de onde extraiu um pedao de papel. - Leia isto 
- ordenou com tom seco.
  Annie obedeceu e sentiu o sangue congelar nas veias; as mos estavam to frias que doam.
  Devagar, leu o documento at o fim antes de encarar o homem diante dela.
- Seu nome  Dominic... - Tinha muitas perguntas a fazer, mas no conseguia formular nenhuma delas. Ele havia dito que o abandonara... desaparecera. Que tipo de 
relacionamento teriam tido para que tomasse uma atitude to drstica? Sabia que no daria as costas para um compromisso to srio quanto o do casamento. Que tipo 
de casamento? Ou que tipo de homem? Um homem que levava mulheres para a cama pelo simples prazer do sexo? - No posso ficar aqui. Tenho de ir embora...
  - Nem pense nisso. Primeiro vai ter de explicar por que me deixou.  o mnimo que posso esperar. E depois daquela farsa pattica de ontem  noite... Destino!
O que poderia dizer? Tinha de defender-se.
  - Deve ter sido... Eu jamais teria...'- Parou e respirou fundo. Apesar do choque, ainda tinha seu orgulho. No reforaria o que havia dito na noite anterior.
  - Por que no fala o que tem em mente? No consegue lembrar? - ele debochou.
- No.
  O silncio estendeu-se por alguns segundos, tenso, enquanto eles trocavam um olhar repleto de significados. Depois Dominic praguejou e virou-se, de forma que estava 
de costas para ela quando disse:
  - Que tipo de resposta  essa, Annie? Acha mesmo que sou algum idiota? Ontem  noite, quando estvamos na cama, voc se lembrou de tudo. Cada toque, cada carcia... 
cada beijo que no passado costumava usar para excitar-me.
  - No foi deliberado... - E parou. O que Dominic dizia era chocante e doloroso demais. Precisava escapar e ficar sozinha para tentar absorver todas as informaes.
  - Ei, onde pensa que vai? - ele gritou ao v-Ia correr para a porta.
  Estava to apressada, que quase derrubou o carteiro ao sair.
Dominic, que tentava alcana-la, foi detido pelo homem que solicitava sua assinatura em um recibo de correspondncia registrada. Ouviu o som do motor do carro e 
os pneus rodando em falso no asfalto.
Ela conseguira. Escapara mais uma vez.
 Annie tremia tanto que temia no ser capaz de dirigir. Mas no podia parar agora... no enquanto no estivesse segura em sua casa.
    Lgrimas corriam por seu rosto enquanto o corao batia forte com um misto de espanto e emoo. No era  Annie White. Era a sra. Dominic Carlyle... uma mulher 
`: casada... E seu marido era o homem de seus sonhos!
 Quando finalmente parou o carro diante do chal, ela ria com incredulidade histrica. O homem de seus sonhos... talvez. Mas, para Dominic, ela era a mulher de - 
seus piores pesadelos!



Captulo 6

Foi maravilhoso. Bob diz que devemos voltar quando for possvel e... - Preocupada, Helena parou de falar ao perceber que Annie no a ouvia. - O que foi?
  - Nada... - Comeou, disposta a negar qualquer problema. Afinal, era uma adulta e devia ser capaz de lidar com os prprios assuntos. Mas duas noites de insnia 
e o choque provocado pela descoberta de que ela e Dominic eram casados haviam abalado seu equilbrio. - Descobri porque Dominic, o homem que vi no restaurante, parecia 
to familiar para mim.
  Ansiosa, Helena deixou sobre a mesa a xcara de caf que Annie servira pouco antes e esperou. Estavam na cozinha do chal, e Annie levantou-se para ir at a pia. 
Em silncio, encheu um copo com gua e bebeu devagar para umedecer os lbios antes de prosseguir.
- Ele  meu marido. - O qu?
  -  isso mesmo. Ele me mostrou a certido de casamento. - E encarou-a com um misto de angstia e desespero. Meia hora mais tarde conclua o relato sobre tudo que 
havia acontecido, ou quase tudo. Algumas coisas, certas traies contra a auto-estima, era incapaz de admitir at mesmo para a melhor amiga.
- Contou a ele sobre o acidente?
Annie balanou a cabea.
  - No tive coragem. Ele afirma que eu o abandonei e... e no sei por que ele se casou comigo. E evidente que hoje em dia seus sentimentos por mim no so positivos.
- E voc? O que sente por ele?
  - No sei. Foi um tremendo choque. Ainda no consigo acreditar...
Precisa contar a ele sobre o acidente.
  - No posso. E, para ser honesta, duvido que ele esteja preparado para ouvir-me. Sinto-me to ridcula! Todas aquelas bobagens que disse sobre o homem de meus 
sonhos, sobre o destino...
  - Ele  seu marido. - Havia algo que devia perguntar, mesmo percebendo a angstia e a infelicidade da amiga e paciente. - Quando ele falou sobre o casamento, voc...
    - No - Annie interrompeu, adivinhando sua dvida.  - No me lembrei de nada. Infelizmente... E preciso lembrar. Tenho de saber por que abandonei o homem que 
amava e desisti do meu casamento. No consigo acreditar que tenha sido capaz de tal coisa. Preciso saber a verdade, ou...
- Dominic no pode ajud-la a entender por que o deixou? - No sei. Ele estava to furioso comigo!
  Como no queria pression-la e contribuir para a tenso que a torturava, Helena desistiu das perguntas e tentou acalm-la. Mas, no fundo, j havia decidido que 
o marido de Annie tinha o direito de saber toda a verdade sobre o acidente. Se ela no tivesse foras para contar a histria... Bem, teria de falar em seu lugar.
  Depois que Helena foi embora, Annie lavou as xcaras, tentando conter o leve tremor que parecia ter dominado suas mos. Duas noites de insnia e ansiedade haviam 
esgotado suas reservas de energia, mas, mesmo que se deitasse, no conseguiria dormir.
Precisava de um pouco de exerccio. Sim, uma boa caminhada poderia ajud-la. Mas uma voz persistente apontava que, no fundo, s uma coisa poderia auxili-la: lembrar 
aquelas ltimas semanas, aquele perodo que permanecia enterrado em algum recanto sombrio da memria. Enquanto no recordasse todos os detalhes, no conseguiria 
defender-se das acusaes de Dominic nem refutar suas afirmaes.
Helena estivera na Petrofiche e descobrira que Dominic trabalhava em casa. Melhor assim. Iria visit-lo sem aviso prvio, caso ele tivesse a inteno de evit-la.
A casa e a regio onde fora construda eram impressionantes, e ela desceu do carro e caminhou at a porta apreciando cada detalhe do conjunto harmonioso. Por que 
Annie abandonara o marido e seu lar? Dominic Carlyle tinha a chave que poderia desvendar o mistrio. Haveria alguma informao vital que ele preferia manter em segredo, 
ou, conforme afirmara, tambm desconhecia os motivos que levaram a jovem esposa a deix-lo?
  Helena tocou a campainha e no teve de esperar por muito tempo.
- Dr. Dominic Carlyle? - Sim, sou eu.
  - Meu nome  Helena Lever.. Sou mdica e amiga de Annie.
  - Mdica? - Intrigado, ele a convidou a entrar e levou-a  sala de estar.
  - Annie no sabe que vim procur-lo - Helena comeou, balanando a cabea para recusar o suco que ele ofereceu com um gesto. - Tinha de v-lo, porque h algo que 
deve saber.
  Dominic estudou-a com ateno. Ela tinha toda a aparncia de uma profissional muito dedicada. Dissera ser mdica de Annie, e de repente o medo provocou um arrepio 
que percorreu toda a extenso de suas costas.
- Ela est doente? - perguntou sem rodeios.
- No no sentido fsico - Helena respondeu com a mesma objetividade. A ansiedade e a preocupao que ouvira na voz dele a pegaram de surpresa. Depois de como Annie 
descrevera seu encontro com aquele homem, esperava encontrar algum mais hostil. - Ela foi vtima de um grave acidente que resultou em um episdio de amnsia. Por 
isso...
  - Espere um minuto! De que acidente est falando? Ns... - Acalme-se, dr. Carlyle. J vai entender tudo. Sei que esteve com Annie recentemente. Quando ela disse 
que no sabia sobre o casamento, estava dizendo a verdade. Ela no tem nenhuma recordao do acidente ou das semanas que o antecederam. Se no acredita em mim, existem 
registros mdicos.
  Dominic balanava a cabea. Acreditava nela, mas estava perplexo com as revelaes.
- Por que ela no me contou nada? Por que no me disse? - perguntou confuso. - Se houvesse falado... - Se ela houvesse falado, voc no a teria hostilizado e ameaado 
como fez? - Helena cortou rspida. - No. Imagino que no. Nenhum homem digno de seu nome teria um comportamento to reprovvel, no ?
  O rubor sutil que tingiu o rosto bronzeado era a prova de que atingira um ponto sensvel.
- Talvez tenha tido uma reao exagerada - ele admitiu. - Mas tem idia do que senti quando ela simplesmente desapareceu?
  - No. Mas sei o que Annie teve de enfrentar depois de ter sido atingida por um carro quando atravessava a rua. Sei por quanto tempo ela ficou em coma, e como 
sofreu quando, ao recuperar a conscincia, descobriu que no conseguia lembrar certos perodos da prpria vida. - Quando... Quando tudo isso aconteceu?
Ao testemunhar a reao provocada pelos comentrios, Helena decidiu que era hora de assumir um tom mais brando, menos acusador.
- H cinco anos. Tera-feira, vinte e oito de setembro, pouco antes do meio-dia, de acordo com os depoimentos das testemunhas - informou. - O dia e a hora esto 
gravados em minha memria, porque perdi a conta de quantas vezes tive de escut-los enquanto acompanhava minha paciente s audincias no tribunal. Ela teve de procurar 
ajuda legal para receber a compensao apropriada pelas leses que sofreu.
Dominic estava plido.
  - Meu vo partiu de Heathrow na tarde de vinte e oito de setembro - ele revelou em voz baixa. - A data tambm est gravada em minha memria. Fiquei parado no saguo 
do aeroporto at ouvir a ltima chamada para embarcar, esperando que ela aparecesse, que explicasse... Annie estava desaparecida havia dez dias. Disse que ela no 
se lembra de nada? Do casamento? De mim?
  Podia ver como era difcil para Carlyle pronunciar as palavras, como tambm imaginava o golpe que seu orgulho sofreria quando ouvisse a resposta.
- No, ela no tem nenhuma lembrana - respondeu. - Mas... ela me reconheceu.
  - Sim. Em um certo sentido, Annie o reconheceu. Mas no como uma pessoa real. No como...
  - Como seu marido - Dominic concluiu. - H alguma possibilidade de ela recuperar a memria? Algo pode ajud-la a...?
- Sim, as lembranas podem voltar. Ningum pode afirmar de maneira categrica quando isso vai acontecer, ou se algum dia acontecer. E quanto ao que pode ser feito... 
Bem, acha mesmo que se houvesse alguma coisa, Annie no teria tentado? - Helena balanou a cabea. - Quando falvamos sobre o que aconteceu, e sobre voc, ela me 
disse que seria capaz de qualquer coisa para lembrar. Entendo que esteja chocado com tudo que acabou de ouvir, mas tente imaginar o que ela deve estar sentindo e 
o que tem sofrido. No s teve de passar os ltimos cinco anos imaginando, preocupada com o contedo desse determinado perodo de vida, como agora tem de lidar com 
o trauma de descobrir que  casada com um homem de quem no consegue se lembrar, algum a quem ela
upostamente abandonou sem sequer saber por qu. Posso garantir, dr. Carlyle, que Annie no  o tipo de pessoa capaz de dar as costas para um compromisso to srio 
quanto o do casamento sem que haja uma boa razo. Talvez saiba mais sobre esses motivos do que est disposto a dizer -- disparou, prendendo o flego enquanto via 
a expresso de Dominic mudar do espanto para a raiva.
  - No sei por que Annie partiu. Tivemos uma discusso ridcula sobre se deveramos ou no ter filhos em algum estgio do nosso casamento, mas foi s isso. Helena 
levantou uma sobrancelha.
  - Considera a deciso de formar uma famlia to trivial assim?
  -- No. Pelo contrrio. Minha infncia me fez compreender a profundidade do assunto. Uma criana precisa ter certeza de que  amada e querida pelos pais. Disse 
que a discusso foi ridcula porque nos
desenten- demos sem nenhum motivo. Ou melhor, brigamos porque em breve teramos de nos separar e estvamos muito ` tensos e deprimidos, no por discordarmos sobre 
uma questo importante como a deciso de ter filhos. - E respirou fundo. - Como ela est? Tive atitudes um pouco '. exageradas na ltima vez em que estivemos juntos. 
Estava surpreso, atordoado e... Bem, no sabi nada sobre o acidente.
Ela est muito abalada - Helena informou com honestidade. - Mas tambm  uma mulher muito forte. Felizmente ela dispe de muita fibra, ou no teria so brevivido. 
- E olhou para o relgio de pulso. No podia mais prolongar a visita. - Annie precisa de sua compreenso, no de seu antagonismo - opinou com franqueza. - No disse 
nada a ela porque no quero alimentar esperanas que podem ser vs, mas acredito que sua presena pode ser um fator muito positivo no processo de recuperao da 
memria.
Dominic trabalhava num relatrio muito complexo quando a chegada de Helena o interrompera, mas sabia que no seria capaz de retom-lo agora que ela partira. Embora 
houvesse se esforado para no revelar os sentimentos, as revelaes o abalaram a ponto de no ter podido compreender tudo que ouvira.
Pensar em Annie ferida, sozinha em um leito de hospital, assustada... com dores, correndo risco de vida... A idia provocava uma ira to grande, um sofrimento to 
intenso, que no conseguia ficar quieto. Por isso andava de um lado para o outro na sala de estar. Por que ela no dissera nada? Por que no havia explicado que 
estava sofrendo de amnsia? Teria entendido melhor toda aquela l, histria sobre destino, familiaridade... Teria...
  O qu? Era tarde demais para arrependimentos. Tarde demais para lamentar...
Mais uma vez, Dominic questionou-se. O que estava lamentando? O fato de t-la levado para a cama? De ter tirado vantagem de Annie? Diante do que Helena revelara, 
seu comportamento s podia ser qualificado como cruel.
  Mas no conhecia a verdade. Imaginara que ela representava, que fingia para engan-lo... Annie havia falado srio? Sentira realmente a felicidade, o amor que um 
dia os unira? Teria mesmo acreditado que havia encontrado sua alma gmea, que o destino traara planos para que seus caminhos se encontrassem?
Bem, se acreditara nisso, quela altura j devia ter mudado de idia. Nada poderia destruir sua crena; ao, partir, ao abandon-lo como havia feito, Annie destrura 
o amor que um dia existira entre eles, mas nada desculpava seu comportamento. Teria de ir procur-la. Devia pedir desculpas por como a ofendera e magoara, mesmo 
que ela ainda no pudesse desculpar-se por tudo que fizera no passado. 
.        Cansado, compreendeu que corria o risco de desenterrar em si mesmo emoes que no eram mais vlidas ou necessrias. Mas pensar em Annie, sua Annie, ferida 
e indefesa, fazia com que sentisse... com que quisesse... Mas ela j no era mais sua Annie. Deixara de ser sua no momento em que o abandonara.
  Annie recolhia a roupa seca do varal. Passara as horas seguintes  visita de Helena num frenesi de arrumao e limpeza, atividades envolventes que a ajudariam 
a parar de pensar em Dominic e esforar-se para tentar lembrar alguma coisa.
  Sabia que devia ter amado Dominic, ou no teria sonhos to ardentes com ele, e imaginava que havia sido correspondida, embora no houvesse detectado sinais desse 
amor quando... No. No devia pensar nisso. Apesar de t-lo amado, sentira-se impelida a deix-lo, e depois criara uma imagem de perfeio atravs dos sonhos que 
o enfocavam como amante.
  Podia compreender melhor uma srie de coisas agora que o encontrara, mas ainda no sabia por que em seus sonhos Dominic assumia o papel de heri, de salvador, 
de uma pessoa nica e especial, quando a realidade era muito diferente disso.
  Dominic a acusara de t-lo abandonado, e no pudera defender-se, porque no tinha nenhuma lembrana dos eventos descritos por ele.
  Levando a roupa seca, correu para dentro de casa tentando sufocar o pnico que crescia dentro dela. Mantendo-se ocupada, talvez pudesse controlar a ansiedade. 
No ousava parar, porque temia pensar na natureza assustadora e irreal da situao em que se encontrava. Era uma mulher casada. Seu marido era Dominic Carlyle... 
. um estranho!
Tremendo, sentiu que o sistema nervoso, j to abalado, ameaava entrar em colapso. Por isso esqueceu a roupa e decidiu preparar uma xcara de caf. Havia acabado 
de pr a chaleira com gua sobre a chama do fogo, quando ouviu a campainha da porta. Devia ser Helena. A mdica e amiga estava preocupada e no se cansava de insistir 
na idia de hospeda-la em sua casa. Sorrindo, Annie foi abrir a porta.
  A viso de Dominic era to inesperada, que foi preciso um grande esforo e muita determinao para no sair correndo como um coelho assustado.
- O que voc quer? - perguntou em voz baixa.
  - Gostaria de conversar com voc - Dominic respondeu com cortesia.
  Mas Annie no se deixou enganar. Sabia que a delicadeza era apenas superficial, um trao que desapareceria assim que ele fosse contrariado.
  - Pois eu no quero falar com voc - respondeu orgulhosa, erguendo o queixo para enfrenta-lo com dignidade. Os vizinhos estavam saindo, e podia perceber que estavam 
atraindo mais interesse do que julgava conveniente. Gostaria de proteger-se da curiosidade daquelas pessoas. Como se pudesse pressentir sua inteno, Dominic sugeriu:
  - Por que no me convida para entrar? No vai querer que todo o bairro escute o que tenho a dizer.
Estava encurralada. Resignada, virou-se e voltou  sala, deixando a porta aberta para que ele a seguisse. Precisava mesmo do conforto da prpria privacidade, da 
segurana de estar em um ambiente conhecido e protegido.
Dominic fechou a porta e perguntou: - Voc est bem?
Bem? Mal podia suportar a intensidade da dor que ameaava rasgar seu peito!
  - Estava! - respondeu com frieza assim que recuperou a voz.
A chaleira apitava na cozinha. Annie atravessou a sala para ir at l e, tensa, sentiu que Dominic a seguia. 
  Queria gritar para que ele no a seguisse, para que no se aproximasse dela. No apreciava sua presena ali, em sua casa, em seu santurio.
        -- Helena foi me procurar - ele revelou sem rodeios.
        Annie sentiu o impacto provocado pelas palavras diretas. A sensao foi imediata e poderosa, uma mistura de dor e medo que a deixava paralisada.
  Sentiu a chaleira escapando de seus dedos. Gritou alarmada, saltando para trs num movimento instintivo ao derruba-la e provocar uma cascata de gua fervente. 
Podia sentir o brao ardendo onde a gua o atingira. A dor era to forte que ela nem tentou sufocar o 'to. Mas era como se tudo estivesse acontecendo com outra pessoa, 
como se no fizesse parte daquele cenrio de horror.
  Viu Dominic caminhando em sua direo. Ouviu a aflio em sua voz quando, nervoso, ele pediu para examinar rea ferida.
 - No foi nada - Annie mentiu, lutando para no sucumbir sob a fora das prprias emoes. - S alguns 'respingos e... - Mas era tarde demais. Ele j segurava seu 
brao e examinava a pele avermelhada, primeiro com os olhos, depois com as pontas dos dedos. O polegar acompanhava o desenho da cicatriz que subia desde o pulso 
'direito at o meio do brao. Apagada, ela ainda era um sinal que Annie preferia manter escondido.
Por que me deixou?
A pergunta foi a gota de gua que completou o balde provaes.
  A ameaa que pairava sobre seu equilbrio desde que ` ubera que era casada venceu as barreiras que tentara construir e ela comeou a chorar e tremer como uma ' 
na apavorada. Cobriu o rosto com as mos, como se im pudesse esconder-se dele e disfarar a vergonha ue sentia da prpria fraqueza.
- No sei... - soluou. - No me lembro de nada... A confisso, como um reconhecimento das prprias fraquezas, abriu as comportas para a dor e o meda.que  conseguira 
manter controlados desde o momento em que recobrara a conscincia depois do acidente.
Tremia tanto. que mal podia manter-se em p. Sentia-se  impotente para assumir o comando dos acontecimentos a sua volta. Ouvia o prprio choro, como se estivesse 
sendo torturada, e depois viu os braos de Dominic estendidos em sua direo. Ele a abraou e apertou contra o peito, e o calor de seu corpo teve o poder de aplacar: 
os sentimentos destrutivos como um manto de espuma apaga as chamas de um incndio.
  - Pronto. Acabou - ele disse minutos mais tarde, quando os tremores perderam intensidade e as lgrimas secaram. - No pode ficar aqui sozinha. Voc vem comigo.
- No! - O grito acompanhou o movimento brusco que interrompeu o abrao. - No sou nenhuma criana! Sou uma mulher adulta e...
  - E tambm  minha esposa. Infelizmente no se lembra do nosso casamento, mas ainda somos marido e mulher. - Podemos nos divorciar...
  - Sim, podemos, mas existem perguntas para as quais espero respostas. E enquanto no tiver todas as explicaes, no haver um fim oficial para a nossa unio. 
Existem coisas que ns dois precisamos saber - reforou. Annie desviou os olhos dos dele. Ainda se sentia fraca j e assustada com os sinais de esgotamento emocional. 
As pequenas pores de pele atingidas pela gua ardiam, e experimentava uma tontura que era ao mesmo tempo incmoda e aterroriznte. Sentia-se quase aliviada por 
Dominic ter decidido assumir o controle.
- Est muito abalada - ele dizia com tom firme. Ns dois estamos. Vivemos uma situao que diz respeito a ns dois, um problema que teremos de resolver juntos. No 
sei por que decidiu pr um ponto final no nosso casamento e, neste momento, parece que nem mesmo voc tem a resposta para essa questo.
  - O que quer dizer com parece? Est insinuando que minha amnsia  uma representao? Acha que no quero lembrar? Pensa que... - Parou ao sentir que as lgrimas 
voltavam a encher seus olhos. Estava fraca e cansada, tanto no sentido fsico quanto no emocional, e o que mais queria era encolher-se em algum lugar seguro e silencioso, 
algum canto escuro onde pudesse escapar do trauma que estava vivendo.
- Essa queimadura precisa de cuidados.
  - Deixe-me em paz. Eu estou bem - respondeu. Mas sabia que no era verdade. Alm da tontura e do enjo, a viso j comeava a ficar turva. Podia ver o rosto de 
Dominic e ouvir a voz dele como se houvesse uma tela atravs das plpebras onde a mente projetava imagens armazenadas ao longo dos anos, mas no o via como ele era 
realmente. Cercada pela nvoa da prpria confuso, tentou agarrar-se s imagens sem foco e escuras, mas era tarde demais. As luzes j se estavam apagando.
  Houve um tempo durante o perodo de recuperao em que havia se perguntado se um dia ficaria realmente bem, se a incapacidade de lembrar no era um sinal de que 
o crebro tambm sofrera leses, como o corpo. Helena fora questionada e tentara tranqiliz-la, mas Annie nunca tivera certeza absoluta da prpria reabilitao, 
e a insegurana quase a demovera do propsito de obter o. diploma e procurar um emprego adequado.
  Agora, ao desviar os olhos dos de Dominic e ver as bolhas que comeavam a se formar em seu brao, reconheceu que no tivera conscincia da gravidade do acidente. 
E apesar da vertigem que ameaava derrub-la, podia ouvir a voz dele distante e firme.
- Chega de argumentos tolos. Voc vai para casa comigo.
O mdico do pronto-socorro havia dito que as queimaduras eram superficiais, mas que o estado emocional de Annie representava uma sria ameaa para sua sade.
se agarrado a essa angstia para incinerar os sentimentos e transform-los em uma massa entorpecida. Mas hoje, ao ver o medo e o sofrimento estampados no rosto de 
Annie, sentira o torpor se desfazendo, abrindo espao para emoes perigosas e intensas.
  A descoberta de que ela estivera  beira da morte, o conhecimento de que havia sofrido sozinha a angstia da perda da memria, o reencontro... Tudo servia para 
despertar nele sentimentos que jamais imaginara experimentar novamente. Mas no era amor, ele argumentou em silncio. Como poderia ser?
  No. Era impossvel. Mas saber disso no o impedia de lembrar...
  Sem querer, olhou para a janela do. quarto. Ali, naquela cama, sua cama, Annie dormia. Annie... Sua esposa... Na cama onde um dia haviam dormido juntos... Sua 
Annie... Seu amor...
Devagar, desviou os olhos para o rio. Ela sempre havia gostado de ficar deitada  noite com as cortinas e as janelas abertas a fim de ouvir o som distante da correnteza. 
Certa vez haviam ido at l para nadarem nus -protegidos pelo manto da escurido.
  A princpio ela se mostrara hesitante, dizendo que o rio estaria frio e que algum poderia v-los, mas depois comearam a trocar carcias e todo o resto fora esquecido. 
A gua estivera mesmo fria, mas eles...
Mais tarde, j.perto do amanhecer, ela o tocara na cama e acariciara seu corpo, beijando-o e tomando a iniciativa pela primeira vez desde que se conheceram. Entre 
um beijo e outro, Annie havia sussurrado:
- Prometa que vai me amar para sempre.
- Para sempre - ele respondera com sinceridade. Dominic voltou ao escritrio. Era um homem adulto e muito ocupado, com um complexo relatrio para concluir. No podia 
ficar vagando pelo jardim enquanto ospensamentos voavam para horizontes perigosos. Por mais que o estado de Annie provocasse sua compaixo, no podia esquecer o 
que acontecera no passado.
  - No me lembro... - Ela havia chorado, revelando um pnico tocante.
Mas, at que ela se lembrasse, nenhum dos dois poderia superar o passado... ou dar por encerrado o casamento.




Captulo 7

Como se sente agora?
Bem - Annie respondeu apressada, evitando encar-lo enquanto se debruava sobre a mesa da cozinha para servir-se de mais uma xcara de caf.
Estava naquela casa h trs dias. Quase setenta e duas horas completas. Tempo demais, em sua opinio. Passara as primeiras vinte e quatro horas dormindo, mas depois 
de recuperar-se do choque provocado pelo acidente com a chaleira, envergonhava-se do prprio desequilbrio.
Era hora de voltar para casa. Queria ir para casa. Precisava ir para casa. Acordar na cama de Dominic despertara emoes que no ousava analisar.
No sentia nada por ele. Apenas raiva pela maneira como a tratara. Mas o homem cuidara dela!
- No estou com fome - protestara naquela primeira noite, quando acordara e o vira parado ao lado da cama com uma bandeja de comida.
- Coma. - Apesar do tom seco, a atitude preocupada tocara um ponto muito sensvel em meio a um emaranhado de emoes intensas, e mais tarde as lgrimas salgadas 
haviam se misturado  sopa que Dominic servira.
- Este quarto  seu - Annie havia protestado quando ele fora buscar a bandeja.
- Nosso. Mas no se incomode com isso. No pretendo fazer valer meus direitos de marido. Preparei uma cama para mim em um dos quartos de hspedes. Determinada, Annie 
decidiu impor a prpria vontade antes que fosse tarde demais.
- Na verdade, sinto-me to bem que acho que  hora de ir para casa e...
- De jeito nenhum. Ainda temos muitos assuntos a resolver.
- Eu... tenho coisas para fazer. Meu jardim, minha casa... Os vizinhos j devem estar intrigados com minha ausncia. - No precisa se preocupar com nada. J expliquei 
a situao aos seus vizinhos. Quanto ao jardim, posso telefonar para a empresa de paisagismo que cuida do meu e pedir...
- Espere um minuto! -Annie o interrompeu. - Disse que explicou a situao? - perguntou, o corao batendo acelerado por conta da tenso.
- Sim, contei a eles sobre o acidente com a chaleira de gua fervente e expliquei que, como minha esposa... - Sua esposa! Disse a eles que somos casados... - A exploso 
furiosa foi to intensa quanto incontrolvel.
- Por que no?  verdade! - Dominic argumentou com tom calmo.
- Mas vamos nos divorciar. Voc no tinha o direito de fazer tal coisa. No quero que...
- No quer que as pessoas saibam que sou seu marido? Ela balanou a cabea. Como poderia explicar que detestava a curiosidade de que seria alvo quando as pessoas 
soubessem que tinha um marido de quem nem conseguia se lembrar?
- Voc no tinha o direito... - repetiu, levantando-se e dando alguns passos pela cozinha antes de anunciar: - Quero ir para casa, Dominic. Quero ir agora.
= Esta  sua casa. O imvel pertence a ns dois desde que nos casamos, e esta  uma das razes pelas quais no consegui vend-lo. Sem a sua assinatura no documento...
- Estou disposta a assinar qualquer coisa. Pode ficar com a casa. No quero... No posso ficar aqui.
- Por que no? Do que tem tanto medo?
- No tenho medo de nada - respondeu apressada, encarando-o para ser mais convincente.
- Est me tratando como se eu fosse seu adversrio, Annie. Um inimigo. E no sou um oponente. Tudo que quero ...
- Eu sei o que quer - ela o interrompeu. - Quer que eu recupere a memria para que possa explicar por que o deixei. Acha que no quero me lembrar do passado? Imagina 
que esto u mentindo, ou fingindo? Tem idia do que senti quando disse que somos casados... que constru uma vida e vivi um amor com um homem que... - Parou ao sentir 
o peso das prprias emoes ameaando esmag-la. -  evidente que quero lembrar. Mas no consigo.
- Talvez no possa lembrar o passado sozinha. Mas com minha ajuda...
- Sua ajuda? O que acha que pode fazer?
- Estive a seu lado nesse perodo de vida que sua memria no consegue resgatar. E me lembro de cada momento, de cada detalhe. Lembro-me de tudo que fizemos... absolutamente 
tudo... e creio que devemos reviver esses momentos... inseri-los novamente em sua vida... talvez assim sua memria recupere os dados que...
- Dominic, espere um minuto! O que quer dizer com reviver esses momentos? - O que ele sugeria era ridculo, algo com que no poderia concordar, mas de que ele parecia 
estar certo.
- No precisa olhar para mim desse jeito. No sou nenhum pervertido que sente prazer em fazer sexo com uma mulher relutante. Estou propondo um retorno ao passado 
sem o elemento sexual do relacionamento. Afinal, esta parte voc no esqueceu, no ? - provocou sorrindo.
Vermelha, Annie engoliu as palavras zangadas que bailavam em seus lbios. Ele se referia aos sonhos, e no podia negar as afirmaes... por mais que quisesse.
- No vai dar certo - disse.
- No pode ter certeza de, nada sem antes tentar. E voc tem o dever de experimentar todas as alternativas. Incapaz de responder, Annie virou-se de costas, reconhecendo 
que o que ele dizia era verdade. Afinal, ela mesma dissera que seria capaz de qualquer coisa para recuperar a memria.
- Muito bem - concordou relutante. - Mas no preciso ficar aqui para...
- Precisa - Dominic cortou enftico. - Afinal, foi aqui que vivemos juntos.
- Antes de nos casarmos?
- Sim, antes do casamento. Por que est to surpresa? ramos amantes. No havia motivo para vivermos separados.
No, mas Annie estava chocada com a revelao.
- Escute - Dominic prosseguiu -, vivemos juntos por dois meses. Tudo que estou pedindo  que me d esse mesmo perodo novamente. Dois meses. Se nesse tempo no conseguir 
lembrar nada, ento admitirei a derrota e...
- E cuidaremos do nosso divrcio - Annie colocou com tom neutro.
- Sim - ele concordou com frieza.
Annie sabia que devia apontar que o divrcio seria inevitvel. De que adiantaria adiar o que certamente acabaria acontecendo? Mas havia uma razo para isso, e sabia 
qual era. O orgulho ferido. Dominic fora atingido em sua vaidade de homem quando ela o abandonara. Queria uma explicao, uma razo, e estava disposto. a obt-la 
de qualquer maneira.
Seus motivos para desejar lembrar o prprio passado eram mais complexos. Sonhara com Dominic como seu amante; o corpo se lembrava dele nesse papel. Antes de saber 
sobre o casamento, sobre o passado em comum, sentira uma necessidade quase incontrolvel de estar perto dele, um sentimento que conseguira tocar e reconhecer atravs 
das portas trancadas da memria. Ento, por que o deixara? A incapacidade de lembrar provocava a sensao de ter perdido parte de si mesma, um sentimento que ameaa 
despertar a insegurana que conhecera na infncia, depois de ter sido abandonada. Mas dessa vez havia sido ela quem cometera o ato do abandono. Por qu? Tinha de 
descobrir.
- O qu? - Helena reagiu com espanto.
Annie havia telefonado para a mdica e amiga a fim de inform-la sobre sua inteno.
- Dominic acredita que nenhum de ns poder seguir em frente enquanto eu no me lembrar do passado. E dele. - Sim, ele tem razo - Helena reconheceu, apesar da apreenso. 
- E se est mesmo disposta a agir dessa maneira...
A vontade de dizer que no queria fazer nada daquilo era imensa, mas Annie conseguiu conter-se. Dominic era um homem determinado e dominador, e nem mesmo a mdica 
seria capaz de demov-lo de seu propsito. Estava tentando convencer-se de que os prximos dois meses seriam como os incmodos tratamentos que fora submetida no 
hospital. O resultado foral compensaria todo o sofrimento.
- Bem, devo admitir que fico feliz por no estar vivendo sozinha. Este  um momento muito traumtico, Annie, e por maior que seja sua sede de independncia, por 
mais que eu entenda essa sua necessidade, este no  um bom perodo para viver sozinha. Devo deduzir que a deciso de entrar com o pedido de divrcio foi adiada?
- Por enquanto - Annie confessou. - Mas vamos retomar a idia em breve.
Em breve. Dentro de dois meses. Parecia um tempo justo para a enormidade da empreitada a que se dispusera, mas, trs dias mais tarde, Annie j comeava a arrepender-se 
por ter aceito e concordado com os planos de Dominic.
Ele e Helena estavam sempre dizendo que no devia se esforar demais, que ainda no estava completamente recuperada, e Annie tinha a impresso de que o tempo custaria 
muito a passar. Dominic vivia to ocupado que quase nem o via, uma circunstncia pela qual devia ser grata, mas que a incomodava. Sentia-se cansada, indisposta e 
com constantes dores de cabea, e sabia que o quadro era causado tanto, pela dificuldade para dormir quanto por tudo que vivia naquele momento. Recusava-se a mergulhar 
num sono profundo e reparador porque temia sonhar com Dominic.
Dominic!
Viver ali com ele causava uma tenso crescente e poderosa, e no s por causa do passado em comum. Pensar nele era o bastante para provocar arrepios e tremores que 
dominavam todo seu corpo. A conscincia fsica que tinha dele era intensa demais para que se sentisse confortvel. Estava vulnervel. Sim, era isso. Acabara de admitir 
o que havia tentado ignorar e negar durante os ltimos dias. Expusera o medo. Fisicamente, queria... precisava... Fechando os olhos, tentou organizar os pensamentos 
caticos. Estava quente ali no jardim, com o sol banhando seu rosto. Dominic trabalhava, e ela estava sozinha. Uma abelha sobrevoou as rosas no canteiro prximo.
Rosas. Podia sentir o perfume. Por trs das plpebras cerradas, via imagens cintilantes e rpidas; rosas aquecidas pelo sol, abertas, espalhando um aroma que no 
conseguia superar o do homem deitado a seu lado. Podia ver as mos dele, os dedos tocando as ptalas de uma flor.
- No a tire da - sussurrava para ele. - Ela viver por mais tempo se permanecer na roseira.
- Voc  to doce...
0 som indulgente da voz ecoava em seus ouvidos como se ouvisse o mar no interior de uma concha, reconhecvel, porm distante.
Podia sentir o hlito em sua pele, na boca, e prendeu o flego esperando pelo beijo.
Os lbios roaram os dela. Sentia as mos subindo seus braos, segurando os ombros. Num movimento instintivo, aproximou-se dele enquanto entreabria os lbios para 
tornar o beijo mais ntimo.
O corpo todo tremia e um gemido de prazer escapou de sua garganta.
- Dominic...
Annie abriu os olhos. O calor e a sensao de bem-estar deram lugar ao frio da tenso. Uma fina camada de suor cobria sua testa.
O que estava acontecendo? Teria enlouquecido, ou vivera apenas um lampejo do passado, como se as lembranas comeassem a se aproximar da conscincia? Teriam realmente 
trocado beijos naquele jardim? Annie?
Ao ouvir a voz de Dominic, ela tentou compor-se, mas a expresso traa os sentimentos mais ntimos.
- O que aconteceu? Est sentindo alguma coisa? Ele era uma figura imponente no terno formal sobre a camisa branca. Viril, atraente, poderoso... Ou seriam suas lembranas 
que projetavam a .imagem de perfeio? Lembranas... Automaticamente, fechou os olhos mais uma vez. - Acho... que acabei de me lembrar de alguma coisa - admitiu.
Por que dissera tal coisa? No tinha importncia. Era tarde demais para lamentar o impulso. Dominic estava a seu lado, tocando seu brao.
- Lembrou? O qu?
- No foi nada. Nada importante - mentiu, incapaz de descrever a experincia sensual.
- Est mentindo. Fale, Annie. Eu tenho o direito de saber. 
Ela engoliu em seco. Sentia-se tonta e desorientada... por causa do calor, ou da emoo que acabara de viver? Sabia que estava tremendo.
- Desculpe. - Dominic sentira o tremor sob suas mos. - No queria soar to agressivo.
O pedido de desculpas superou a barreira da resistncia. Hesitante, comeou um relato confuso.
- Foram as rosas... Senti o perfume, e ento... - Parou e fitou-o, sem se dar conta da apreenso que cintilava em seus olhos. - Houve algum dia em que... ns...
Dominic sabia o que ela queria perguntar.
- Voc sempre gostou muito desta parte do jardim - disse. - Costumava vir para c com freqncia e... - Parou e desviou os olhos dos dela. - Sei que tudo isso deve 
ser muito difcil e doloroso, mas ao contrrio de voc, no esqueci um nico segundo do tempo em que vivemos juntos e... - Mais uma vez, interrompeu o discurso e 
soltou-a.
Era estranho, mas sentia falta do calor do contato. Impelida pelo instinto, estendeu a mo e surpreendeu-se ao v-lo segur-la, entrelaando os dedos nos seus e 
olhando para as mos unidas enquanto continuava:
- No sou totalmente imune s lembranas daquele tempo. Foi aqui, exatamente neste lugar, que eu disse que queria gravar sua imagem em minha mente para lev-la comigo 
quando partisse, e foi aqui que...
- Ns nos beijamos. E voc disse que minha pele era mais perfumada que as rosas - Annie concluiu com tom solene.
- Sim.
-Eu... acabei de me lembrar disso... quando voc falou sobre gravar minha imagem. Antes s sabia que havamos nos beijado.
- Sim, trocamos muitos beijos neste lugar e... Meu Deus... De repente estavam abraados, trocando um beijo ardente, algo que ia muito alm de uma simples recordao.
Devia det-lo, mas tudo que conseguia era beij-lo com a mesma avidez que sentia em seus lbios. O homem que ameaava destruir seu controle emocional no era mais 
um sonho, uma imaginao. Por isso mesmo exercia efeito ainda mais perigoso sobre seus sentidos.
Por que reagia de maneira to estranha? Por que o desejava com tanto ardor? Por causa das lembranas que acabara de recuperar?
- Dominic... Oh, Dominic!
Nem sabia que estava pronunciando seu nome. S tomou conscincia da prpria voz quando ouviu a resposta embargada,
- Sim... Estou aqui.
Os corpos se tocaram e as bocas buscaram-se como se ainda fossem amantes em realidade.
Algumas coisas no podiam ser esquecidas ou apagadas. Sentimentos... necessidades... Annie sentia o corao batendo acelerado e abria as pernas para acomodar a rigidez 
de uma coxa musculosa. O prazer era to intenso, que ela suspirou.
Logo ele beijaria seu pescoo. Depois os seios, afastando as roupas para que pudesse saborear sua pele... Diria que sua beleza no podia ser comparada a nenhuma 
outra em todo o universo, e seu corpo clamaria pela satisfao que s aquele homem poderia proporcionar. Depois...
- No! - Tomada pelo pnico, ela interrompeu o beijo e recuou.
Por um segundo trocaram um olhar carregado de angstia e surpresa. Depois, como se fossem regidos por um maestro invisvel, buscaram proteo nos esconderijos imaginrios 
onde julgavam poder ocultar os verdadeiros sentimentos.
- No devia ter feito isso - ela comeou.
- E voc no devia ter permitido que isso acontecesse. Permitir! Bem, pelo menos ele no dissera que no devia ter correspondido e at incentivado.
Estava cansada e com frio. Como se sentisse seu desconforto, Dominic respirou fundo e disse:
- Escute, sei que tudo isso  muito difcil para voc. Mas tambm no  fcil para mim.
- Imagino que no. Mas ao menos pode lembrar o que vivemos juntos. - Lgrimas enchiam seus olhos e a voz se tornava rouca, traindo a frustrao de no poder compreender 
os prprios sentimentos. - Voltou mais cedo do que eu esperava - disse, mudando de assunto.
- A tarde est to agradvel, que imaginei que gostaria de sair. Mas se no se sente bem...
- Estou tima - mentiu. Ainda experimentava a tontura e a desorientao de antes, mas no sabia o que causava o mal-estar. As lembranas ntidas do passado, ou o 
que acabara de experimentar nos braos do homem que dizia ser seu marido? No queria descobrir a resposta. Francamente, temia o que teria de confrontar.
- Agora que comeou a recuperar algumas recordaes, talvez deva tentar lembrar outras coisas - Dominic sugeriu. - O que quer dizer? - Se estava insinuando que um 
novo beijo poderia despertar novas recordaes, no hesitaria em recusar a idia com firmeza.
- Pensei em lev-la para um passeio de carro. Podemos ir a alguns lugares que visitamos quando estvamos... juntos. Talvez assim consiga recuperar mais alguns fragmentos 
de memria.
- Acha mesmo? Bem, no creio que um passeio possa me prejudicar - admitiu curiosa. No sabia se gostava da sugesto de Dominic, mas de uma coisa tinha certeza: faria 
qualquer coisa para escapar da atmosfera de intimidade do jardim.
Sabia que no havia nenhuma lembrana associada ao carro de Dominic, porque aquele era um modelo novo e... - Que tipo de carro voc possua? - perguntou com tom 
curioso enquanto prendia o cinto de segurana.
O BMW deixou a garagem com suavidade impressionante. O motor era to silencioso que os passageiros quase nem podiam ouvi-lo.
- Antes deste?
- No. Sim. Quero dizer... no passado. - Quando nos conhecemos?
Ela assentiu.
- No consegue lembrar?
Annie comeou a balanar a cabea, mas a imagem de um veculo utilitrio passou por sua mente. Um jipe, talvez? A pintura verde estava coberta de barro e riscada. 
- Era um... No. No consigo lembrar.
Dominic sentiu que ela havia recordado alguma coisa. Por isso decidiu testa-la.
- Era um modelo esportivo com dois assentos. Vermelho. - O qu?
- Parece surpresa. Que tipo de carro esperava que eu tivesse?
-Eu... no sei. Pensei em um jipe. Ou um Land Rover. - Um Range Rover - ele a corrigiu. - Verde escuro. Estavam atravessando a cidade, e Dominic passou pela praa 
central e estacionou o carro em uma vaga bem perto dela.
- Venha. Vamos caminhar um pouco.
- E ento? - ele indagou meia hora mais tarde, segurando a mo dela enquanto passavam mais uma vez pela rua estreita onde afirmava t-la conhecido.
- No. Nada. No consigo lembrar. - Ao ver a decepo em seu rosto, sentiu que as lgrimas ameaavam venc-la mais uma vez. - Acha que  fcil para mim? Sonhei com 
voc - disse aflita. - Pensei que fosse apenas uma imagem criada pela minha imaginao. Um amante de conto-de-fadas. Mas isto no  um sonho,  um pesadelo horrvel 
e insuportvel que no posso mais suportar! No quero...
- Como tambm no me quer?
O tom grave e contido teve o poder de silencia-la. No ousava encara-lo.
- Isso no vai dar certo - murmurou.
Um jovem casal caminhava na direo deles, a moa aninhada no ombro do rapaz. Os dois andavam abraados, e pouco antes de alcana-los pararam para um beijo. Primeiro 
apenas um simples roar de lbios. Depois uma demonstrao pblica de paixo e desejo. A garota foi a primeira a afastar-se, sorrindo. Annie no conseguia deixar 
de olhar para o casal. O riso jovial ecoava em sua mente provocando uma estranha tontura.
- Annie?
Ouviu Dominic repetindo seu nome e fez um enorme esforo para fita-lo, desviando os olhos dos dois jovens. - Estou cansada - disse. - Quero ir para casa. Para sua 
surpresa, ele no insistiu para que ficassem nem fez qualquer comentrio. Em silncio, levou-a ao local onde estacionara o automvel e dirigiu compenetrado at um 
pequeno pub nos arredores da cidade onde ela j havia estado algumas vezes com Helena e Bob. A comida era esplndida, o ambiente, muito agradvel, mas sabia que 
nunca estivera ali com Dominic, porque o restaurante havia sido inaugurado h dois ou trs anos. - Nunca estivemos aqui - afirmou categrica.
- No. Mas precisamos comer, e achei que seria bom passarmos algum tempo em territrio neutro.
Queria dizer que no estava com fome, mas de repente percebeu que comeava a recuperar o apetite.
A refeio e as duas taas de vinho a ajudaram a relaxar. Na verdade, havia relaxado at demais, ela percebeu mais tarde, compreendendo que havia adormecido durante 
a viagem de volta para casa.
- Sente-se bem? - Dominic indagou ao v-Ia abrir os olhos.
No sabia se era o tom divertido, ou o ar indulgente de um adulto lidando com uma criana especialmente difcil, mas a atitude de superioridade a irritava.
- Estou muito bem - respondeu rspida, acomodando-se melhor no assento. - Duas taas de vinho no me transformam em uma... bbada.
- No. Mas ainda me lembro de como o vinho  capaz de dissolver suas inibies e transform-la em uma mulher amorosa e quente que...
- Pare! - No precisava de ajuda para sentir-se ainda mais vulnervel. Perturbada, saltou do carro e correu para a porta da frente da casa.
Estava tentando abri-Ia quando ele a alcanou. - Desculpe. No devia ter dito aquilo.
- Tem razo - ela concordou, respirando fundo a fim de acalmar-se. Tinha de ser justa. Sabia que ele s queria ajud-la. - Sei que est ansioso para que eu recupere 
a memria, mas se acha que vai precipitar alguma coisa com comentrios picantes sobre episdios que eu nem sei se vivi realmente... No  assim que vai me ajudar 
a reativar a memria.
Dominic abriu a porta e esperou que ela entrasse antes de responder:
- Quem disse que era sua memria que eu queria reativar?
Ele tambm havia bebido. Sim, isso explicava o comportamento absurdo e inconveniente. Mesmo que houvesse consumido apenas um copo e fosse mais resistente, o lcool 
o afetara de alguma forma. Ainda se lembrava de como ele a incentivava a terminar a primeira taa enquanto ele... Annie parou no hall. Ainda se lembrava... Devagar, 
caminhou at a cozinha, onde Dominic enchia uma chaleira com gua e pegava duas xcaras no armrio.
- Tudo bem, j sei que no devia ter dito aquilo, mas... - Ao virar-se e ver o rosto plido e assustado, deixou as xcaras sobre a mesa e correu ao encontro dela, 
temendo ter de ampar-la. - 0 que foi? 0 que aconteceu?
- No sei. Eu... Bem, eu me lembrei de que voc sempre tomava duas taas de vinho antes de eu terminar a primeira. Pude v-lo... ouvi-lo... Foi quase como se estivesse 
vivendo novamente a mesma cena. Sei que no  muito, mas...
- No, no! No deve ficar desapontada. J  um bom comeo.
- Sim,  um comeo...
Sabia que poderia lembrar muito mais se ele a ajudasse, e estava comeando a pensar que talvez... Bem, podia pedir ajuda, ou... A cabea comeava a doer. Seria efeito 
do vinho?
Preferia que Dominic no fosse to generoso e compreensivo. Sentia-se mais a vontade para enfrent-lo quando ele a hostilizava, quando usava as palavras para agredi-Ia. 
Assim... Assim podia fingir que no percebia a excitao, a saudade e a simpatia que comeavam a crescer em seu peito. No. Estava apenas confusa. Sabia que haviam 
vivido juntos, que haviam sido amantes, e essa certeza provocava reaes conflituosas. Mas isso havia acontecido no passado. E o passado estava enterrado em algum 
recanto sombrio da memria. O passado, quando o abandonara a dera as costas para o amor.
- Estou cansada - disse. - Acho que vou para a cama. Dominic a viu sair da cozinha e respirou fundo. Ela parecia to vulnervel, to perdida e triste... Queria correr 
atrs dela, abra-la e dizer que o passado no importava, que podiam... Podiam o qu? Recomear do nada? Em que estava pensando? S porque podia vislumbrar a garota 
que um dia ela fora.... porque quando a beijara ela correspondera... porque se lembrara do beijo...
Mas no era aquela garota que despertava remorso e ternura no presente.
Ento, ainda tinha algum sentimento por ela. Ainda reagia a sua presena. Ainda a queria. E da? Tinha o direito de ser humano, no? Alm do mais, nada disso significava...
No. No estava apaixonado pela prpria esposa novamente. E dessa vez ela era uma mulher, no uma garota, como no passado.
O caf tinha um sabor amargo. Irritado, deixou a xcara sobre a pia e desistiu da bebida forte e quente. Apreciava seu caf sempre mais aromtico e saboroso, mas 
quela hora da noite... No queria sofrer os efeitos da ingesto de um estimulante to poderoso. Insnia, excitao...
No. Francamente, no precisava do caf para ficar ainda mais excitado.



Captulo 8

Annie olhou para a janela atravs do quarto escuro e depois para o relgio digital. Passava das duas da manh e estava acordada h mais de uma hora, os pensamentos 
se chocando numa tormenta interminvel que no a levava a lugar nenhum.
Os fragmentos de memria que havia recuperado a perturbavam, porque no conseguia compreender seu verdadeiro significado.
Em algum lugar do inconsciente estava a resposta que ela e Dominic buscavam com desespero. Mas no conseguia descobri-Ia. As recordaes breves do casamento s reforavam 
o que os sonhos j haviam revelado: o corpo clamava por ele como amante, e qualquer que fosse o motivo que a levara a deix-lo, no fora forte ou importante o bastante 
para destruir o desejo.
Desejo?
Impaciente, empurrou as cobertas e levantou-se. No conseguiria dormir. Era melhor descer e preparar o ch quente que a garganta pedia.
Um sorriso distendeu seus lbios quando vestiu o robe de algodo, presente de Bob e Helena, uma espcie de piada particular da qual haviam rido muito depois de ter 
visto a pea em uma vitrine e comentado com os amigos. O tecido branco tinha estampas de pequeninos coraes negros com mensagens breves. Por alguma razo, o robe 
chamara sua ateno. Era quase infantil, curto e simples, e mesmo assim o adorava.
Na escada, parou para admirar a balaustrada, deslizando os dedos pela madeira polida. Os longos meses de recuperao haviam sido um tempo de leitura e aprendizado... 
de reflexo que servira para alargar seus horizontes em todas as direes. A menina insegura que fora, o ser defendido e preocupado com a possibilidade de ser rejeitada 
por causa de um passado solitrio, tornara-se uma mulher confiante e firme.
Ainda doa saber que a me a abandonara e que jamais saberia quem foram seus pais. Mas o amor e o respeito que existiam entre ela e Helena, o relacionamento prximo 
e sincero que haviam construdo, serviram para comprovar que podia ser valorizada pelo que era.
No orfanato onde crescera sempre fora quieta e retrada demais para fazer muitas amizades, ou para atrair e encantar os casais que l iam buscar uma criana para 
adotar.
Annie continuou descendo a escada e parou ao lembrar um incidente particularmente doloroso da infncia. Devia ter cerca de quatro anos e dividia com outra menina 
a predileo de um casal que havia visitado o orfanato diversas vezes. Havia esperado que eles a escolhessem, mas, tmida, no expressara seus sentimentos com palavras 
quando eles a levaram para passear, preferindo orar em silncio pela adoo. Ento, certo dia, eles visitaram o orfanato com um casal mais velho, pais de um deles, 
agora compreendia. Estava parada na porta, esperando ser chamada para ir v-los, quando ouvira uma conversa entre o grupo de adultos.
- Gosto de Annie - dissera a jovem esposa. - Ela  to doce e graciosa!
- Annie? - Protestara a mais velha. - No  aquela menina que foi abandonada? No creio que deva escolh-la, Elaine. No tem a menor idia sobre suas origens, a 
no ser... Bem, as circunstncias so claras, no? Que tipo de pessoa abandonaria a prpria filha? Sabe o que dizem sobre a herana sangnea. Minha me vivia repetindo 
que uma rvore boa no d frutos podres, e a recproca deve ser verdadeira. No. Em seu lugar, eu escolheria a menina de cabelos mais escuros. Pelo menos conhece 
seu passado e sabe de onde ela veio.
Como em qualquer sociedade estruturada, havia uma hierarquia no orfanato, uma ordem estabelecida, e Annie sempre soubera que era diferente dos outros, porque ningum 
sabia quem era ou de onde sara. Fora encontrada por uma mulher idosa no banheiro de uma movimentada estao ferroviria da cidade, e apesar de todo o esforo das 
autoridades para que algum a reconhecesse e reclamasse, ningum atendera aos anncios divulgados em todos os meios de comunicao. E naquele momento soubera porqu. 
Tinha sangue ruim! Era fruto de uma rvore podre!
Depois de preparar o ch, voltou ao corredor e parou ao passar pela sala de estar.
Havia sido ali que ela e Dominic passaram noites abraados, lendo, conversando...
Trmula, entrou na sala e caminhou at a poltrona ao lado do sof. Deixou a xcara sobre a mesa ao lado dela e sentou-se, olhando para o sof como se ali pudesse 
encontrar todas as respostas.
O que procurava? Uma imagem do passado?
Prendia o flego, esperando ver alguma coisa, talvez lembrar algum detalhe... Mas as recordaes vagas j se dissolviam sem se transformarem em dados mais concretos.
Era irritante, como se a memria fizesse um jogo com o propsito deliberado de atorment-la, transmitindo informaes suficientes para gui-la em alguma direo, 
mas sem oferecer nada mais substancial.
Havia um bloco de anotaes  uma caneta sobre a mesa, e ela seguiu o impulso de peg-los, cruzando as pernas enquanto rabiscava ao acaso.
rvores de galhos finos, sem folhas... uma casa pequenina, quadrada, com janelas protegidas por cortinas e uma coluna de fumaa brotando da chamin. Ela acrescentou 
um jardim e uma cerca que delimitava todo o terreno. No precisava de muita imaginao para saber o que aquilo representava. Mas e o rio que tambm havia desenhado? 
E o carro? Um veculo grande e forte, no muito diferente de um jipe com propores exageradas... O Range Rover de Dominic?
- Pense, pense... - Murmurou para si mesma. - Faa um esforo.
Comeou a escrever. O nome de Dominic, percebeu, com pequenos coraes no lugar dos pingos dos "is". Por que fizera aquilo? Escreveu a palavra casamento e, sob ela, 
uma lista de outras palavras, a caneta adquirindo velocidade na medida em que deixava os pensamentos flurem livres.
Quando parou, estava ofegante como se houvesse praticado algum exerccio fsico. A pulsao tambm havia se tornado mais rpida.
Nervosa, estudou a lista.
Amor. Confiana. Respeito. Companheirismo. Aceitao. Dominic.
Lgrimas corriam por seu rosto.
Dominic olhou para o relgio digital e suspirou. Acordara repentinamente, sentindo-se alerta e consciente como se fossem oito horas da manh. E ainda eram pouco 
mais de trs.
Sabia que no conseguiria voltar a dormir. Era melhor aproveitar o tempo para trabalhar. Decidido, levantou-se e vestiu o robe.
Annie estava to concentrada na lista, que s percebeu a presena de Dominic quando ele j estava na sala. Constrangida, sentiu o rosto quente e soube que estava 
vermelha.
- No conseguia dormir -: disse. - Desci para preparar um ch...
- Humm... Aconteceu o mesmo comigo - ele respondeu, aproximando-se para examinar o bloco sobre seus joelhos. - O que est fazendo?
- Nada. Pensei em escrever tudo que passasse por minha cabea, porque assim talvez...
- Posso ver o que escreveu? - Dominic sentou-se no sof.
Relutante, ela entregou o bloco.
- Nem sei por que fiz isso. Foi uma idia tola e... O que foi? - Por que ele estava to concentrado, como se naquele papel houvesse um segredo de estado?
- Nada. Ou melhor, so os coraes sobre os "is". Como esses em seu robe - acrescentou, apontando uma similaridade que ela no havia notado. - Era assim que voc 
costumava escrever meu nome. Dizia que os coraes eram os nossos.
A atmosfera de intimidade s podia ser conseqncia do silncio da madrugada. Mesmo assim, sentiu-se com coragem para perguntar:
- O que aconteceu de errado conosco? Por que no conseguimos... - E parou. - As vezes tenho a sensao de que meu destino  conviver com perguntas sem respostas, 
com espaos vazios.
- Est falando de seus pais?
- Vivo me perguntando se minha me ainda pensa em mim. Se algum dia pensou em mim.
A confisso sincera tocou os sentimentos de Dominic de maneira inesperada. Corria o risco de reagir como se ainda a amasse, mas no podia ser egosta a ponto de 
pensar em si mesmo. No diante de todo o sofrimento estampado no rosto dela.
- Tenho certeza de que ela sempre pensou em voc. Sempre havia imaginado que a me de Annie era apenas uma garota assustada quando abandonara o beb, uma menina 
imatura e apavorada -demais para contar a algum que tivera uma filha. Com o passar dos anos .e a maturidade, ela devia ter sofrido muito com a lembrana do beb 
que deixara em um banheiro pblico. - Jamais poderia fazer tal coisa com um filho - ela comentou emocionada. - Nunca. Quaisquer que fossem as circunstncias. Por 
nada, nem por ningum... - Parou e respirou fundo. O que provocara uma exploso to forte? Precisava manter a calma, ou no encontraria as respostas que buscava. 
- Como foi nosso casamento? Talvez possa me ajudar a lembrar. No sei...
- Foi muito bom. De fato, foi mais que bom, Annie. Foi... foi...
A dor e o sofrimento causado pelas lembranas eram to evidentes em seus olhos, que Annie no conseguiu esconder o pesar, o remorso que sentia.
- Oh, Dominic, eu...
De repente estavam abraados, trocando beijos e carcias carregados de emoes que nenhum dos dois saberia explicar. Annie no tinha foras nem vontade para resistir, 
e por isso deixou-se tomar nos braos para ser acomodada sobre seus joelhos. Havia tanta ternura na mo que alisava seus cabelos! Podiam ter feito amor centenas 
de vezes antes, mas aquilo era diferente, especial; a que sentiam, o que compartilhavam nesse momento no era apenas um redespertar de antigas paixes.
O homem que a tocava e acariciava no era produto de sua imaginao, nem era o marido que abandonara no passado. Aquele era o homem em que ele se transformara.
Abriu os olhos e viu que Dominic a observava. O tempo parecia ter parado. Nenhum som, nenhum movimento, nem mesmo o rudo da respirao de um deles perturbava a 
comunicao silenciosa.
Devagar, ele inclinou a cabea para beij-la. Um beijo lento, doce e quente. As carcias eram to sensuais, que Annie no conseguia conter os tremores que a sacudiam. 
Um suspiro profundo rompeu o silncio quando uma das mos comeou a deslizar por seu corpo, explorando as curvas nuas sob o robe fino.
Dominic podia sentir cada resposta provocada por seus dedos. Cada pequeno arrepio, cada pulsar das veias... E tambm conseguia visualizar com perfeio o corpo sob 
o robe.
O que havia comeado como uma simples tentativa de provar que haviam sido felizes juntos logo transformou-se em algo mais potente e perigoso, algo enraizado no presente, 
algo que desafiava a razo e o controle. A mulher que beijava, abraava, acariciava... a mulher que desejava... no era a garota com quem se casara. A mulher que 
tocava e por quem ardia era algum em quem ela se transformara, e a intensidade de seu desejo tornava plidas as lembranas de como havia sido entre eles.
Conhecia o perigo que corria. No podia continuar negando a realidade. Estava apaixonado por ela mais uma vez, abusando do poder conferido pelo papel que desempenhava 
na vida dela, tirando proveito de algum que, indefesa e vulnervel, suplicava por sua ajuda.
Tinha de parar antes que fosse tarde demais.
Annie sentiu a perda e a confuso provocadas pelo afastamento de Dominic. Ele arfava, e podia sentir seu corao batendo num ritmo frentico.
- No devemos continuar - ele tentou explicar. - Isto no ... Estamos brincando com fogo, Annie. Nada seria mais fcil do que lev-la para a cama agora e...
A humilhao causava um rubor que queimava seu rosto. Gostaria de poder desmenti-lo, mas era impossvel negar a afirmao direta e objetiva. Qual era o problema 
com ela? O que fora feito de seu orgulho? Por que se atirava em seus braos e implorava por suas carcias?
-Tem razo -concordou, tentando salvar o que ainda restava de sua dignidade. - Para ser honesta - continuou com falsa indiferena -, no creio que seja importante 
saber por que nosso casamento acabou. Mesmo que eu me lembrasse, isso no mudaria nada. Talvez seja melhor pedirmos o divrcio.
O que ela faria se confessasse sua paixo e dissesse que no queria o divrcio?
De repente compreendia que a urgncia de entender o que a levara a abandon-lo no era provocada pelo desejo de pr um ponto final no casamento e enterrar o passado. 
Queria saber o que havia acontecido para reparar seu erro e tentar reconstruir uma vida ao lado dela. No era no passado que estava interessado, mas no presente 
e no futuro que ainda poderiam ter juntos.
- Melhor para quem? - perguntou irritado, sentindo que a fina malha de suas esperanas era esgarada pelas garras afiadas da realidade. - No para mim. Ainda preciso 
ouvir algumas respostas, Annie, e enquanto no puder ouvi-Ias... - Parou e respirou fundo. - Escute, isso no vai nos levar a lugar algum. Estou certo de que poderemos 
discutir o assunto com mais clareza depois de algumas horas de sono.
Sabia que ele tinha razo, e por isso concordou com a sugesto em silncio, limitando-se a um breve movimento afirmativo de cabea.
No entanto, meia hora mais tarde, enquanto 'ainda esperava pelo sono que traria o alvio, Annie chorou ao lembrar a proximidade de que haviam compartilhado pouco 
antes, a intimidade que Dominic destrura. Teria sido assim no passado? Teriam sentido um amor intenso o bastante para que o resto do mundo perdesse a importncia?
Tomada por um sentimento de perda e por uma enorme solido, chorou pelo amor que ela e Dominic haviam de alguma forma destrudo.
- Repita. Tudo, por favor, desde o incio. Desde que nos conhecemos.
Dominic suspirou, estudando o rosto plido de Annie. Tratavam-se com reserva cautelosa desde a noite em que quase cedera  tentao de fazer amor com ela, e sofria 
ao ver o esforo que Annie fazia para tentar recuperar a memria.
Estavam caminhando pela margem do rio, e de repente Annie deixou escapar um grito quando um jovem casal em bicicletas se aproximou por trs deles, fazendo soar suas 
buzinas e causando um susto to grande que ela quase perdeu o equilbrio.
Dominic respondeu de forma automtica, estendendo as mos para ampar-la.
- Tudo bem? - perguntou preocupado.
- Foi s um susto. - Por mais que se esforasse, no conseguia disfarar o tremor que fazia os dentes se chocarem. - Disse que nos conhecemos quando?
- Voc no est bem. Acho que...
- No estou interessada no que voc acha - Annie interrompeu descontrolada. - S quero descobrir por que o deixei e segui em frente com minha vida.
A preocupao de Dominic aumentou. Se no interferisse, Annie continuaria se esforando para recuperar a memria at que a presso a fizesse adoecer.
Todos os dias, vrias vezes, ela insistia para que contasse a histria do relacionamento, exigindo todos os detalhes e ouvindo com desespero crescente na medida 
em que os relatos no provocavam o retorno das lembranas.
Estava to cansada, to abalada e nervosa, que um simples susto era o suficiente para disparar uma reao intensa composta por tremores e lgrimas.
Ele tentou confort-la.
- No se torture dessa maneira - disse, estendendo os braos em sua direo.
Annie ficou tensa ao sentir-se abraada: Cada contato, por menor que fosse, despertava o desejo que era como uma tortura. Queria Dominic... Amava-o com todas as 
foras... Como poderia negar?
- No - protestou.
Mas era tarde demais. Os lbios tocaram os dela, e foi impossvel permanecer indiferente. O beijo podia ser terno como o de um casal de namorados, mas no devia 
deix-lo adivinhar seus sentimentos. 0 orgulho no permitiria. Foi desse pensamento que tirou foras para empurr-lo. Ao virar-se para fugir, o mundo perdeu as cores 
e tudo comeou a girar com velocidade espantosa.
- Annie...        - Ouvia a voz dele, reconhecia a ansiedade e a preocupao, mas no conseguia responder. Penetrara em outra dimenso, em um mundo distante... Lembrou 
outra ocasio em que passeara pela margem do rio com o marido. Tambm haviam trocado um beijo, e ento... Annie respirou fundo e gemeu.
- O que foi? O que aconteceu? - ele indagou aflito. Com enorme dificuldade, conseguiu encara-lo. A imagem mental daquele mesmo rosto havia desaparecido, mas a lembrana 
que a acompanhara permanecera.
- Eu... ns estvamos passeando por aqui - contou. - Voc me beijou e... - Parou e olhou para trs, na direo da casa.
- E eu disse que queria leva-la para casa, onde poderamos fazer amor. Voc olhou para mim e...
- No quero ouvir mais nada! - As imagens invocadas por Dominic alimentavam a assustadora vulnerabilidade. S o orgulho sustentava a determinao de recuperar a 
memria. Cada dia em companhia de Dominic aumentava a conscincia do perigo. No sabia por que o deixara, mas certamente compreendia porque se apaixonara por ele.
Gostavam do mesmo tipo de comida, liam os mesmos jornais, apreciavam os mesmos passeios, os mesmos programas de tev... Os pontos em comum eram muitos.
- Venha, vou leva-la para casa - Dominic anunciou. Ao ver o pnico em seu rosto, sorriu com um misto de tristeza e ironia. - No se preocupe. No vou reviver o passado 
e leva-la para a cama. Por maior que seja a vontade... No. Voc est exausta. Est ultrapassando seus limites, -e isso no  nada bom.
- No quer que eu recupere a memria?
- Ns dois precisamos da verdade. Mas, acima de tudo, tem de dar mais ateno a sua sade. Venha, vamos para casa.
Para casa!
A emoo que sentira ao conhecer aquele lugar havia sido enorme.
-  to grande! - exclamara admirada.
-  s um imvel - ele respondera. - Tijolos, cimento... S sua presena poder transform-la em um lar.
Uma casa. A primeira que tivera. E Dominic no havia poupado esforos para que ela tambm se sentisse dona daquele lugar. Passaram horas estudando os catlogos de 
diversas lojas da cidade, tentando decidir que estilo de decorao combinaria melhor com o quarto do casal.
- A seda chinesa era minha preferida, ms tive medo de dizer porque era muito cara - comentou em voz baixa. Os dois trocaram um olhar silencioso. Depois, com naturalidade 
espantosa, Dominic perguntou:
- Est falando das cortinas do quarto? Sim, teria sido perfeito. Melhor ainda se houvesse concordado quando sugeri aquela cama colonial com cortinas de cetim. Annie 
fechou os olhos contra o desespero:
- O que est errado comigo? Por que posso lembrar um detalhe tolo, como a cortina que deixei de escolher, e no me recordo do mais importante?
- Talvez seja menos doloroso lembrar a cortina de seda. Dominic estava certo. A separao devia ter sido traumtica.
- Por que acha que o deixei? - ela perguntou.
- No sei - ele reconheceu com um sorriso triste. - Fiz essa pergunta a mim mesmo centenas de vezes, mas nunca encontrei uma explicao lgica. Voc estava aborrecida 
porque eu ia viajar. Havamos discutido. Na verdade, vivamos um perodo conturbado, marcado por uma srie de pequenas discusses provocadas pela tenso da separao 
iminente.
- Mas eu sempre soube que voc teria de partir.
- Sim, eu fui absolutamente honesto, mas isso no me impedia de sentir culpa por ter de deix-la.
- Voc no tinha escolha.
- Sempre temos escolha. Podia ter rompido o contrato. Podia ter dado mais importncia ao nosso relacionamento. Voc era jovem demais para lidar com a presso de 
uma situao to delicada e... Bem, depois da infncia que teve, sem dvida precisava da segurana de sentir-se amada, querida. Acho que no soube lidar com esse 
aspecto da nossa relao. Talvez...
- Talvez isso tenha me levado a fugir como uma criana mimada? Uma menina tola que fazia travessuras para conseguir a ateno que queria? Era esse meu estilo, Dominic?
- No. De jeito nenhum.
- Mas  isso que pensa sobre nossa separao, no? Acredita que o abandonei para puni-lo porque pretendia viajar sem mim. Que atitude infantil!
- E uma possibilidade - ele reconheceu. - Voc era muito jovem, e naquela idade pode ter confundido paixo e amor.
A explicao era razovel, mas no conseguia aceit-la. Era como se a hiptese no encontrasse eco em sua personalidade, como se no combinasse com o que sabia sobre 
si mesma.
- Chega de perguntas, Annie. Precisa de um banho quente e de algumas horas de sono. Levarei seu jantar numa bandeja e...
- E ler uma histria para mim? - ela cortou com tom rspido. - No sou mais uma criana.
- Tem razo, no . Alm do mais, histrias infantis devem ter sempre finais felizes.
Annie entendeu a mensagem. No haveria um final feliz para a histria que viviam. A menos que... A menos que Dominic dissesse que no se importava mais com o passado, 
que a amava e no a deixaria partir nunca mais.
Era isso que queria ouvir? O que realmente queria era ele. Dominic, seu amante, seu marido, seu destino.
- Hoje irei ao escritrio e talvez tenha de trabalhar at tarde.
Annie desviou o rosto da xcara de caf, tentando conter a onda de nusea provocada pelo aroma da bebida. Era a terceira manh seguida que experimentava o mesmo 
mal estar. Apesar disso, estava bem. As queimaduras no brao cicatrizaram, e o mdico atestara sua recuperao.
- Est bem - respondeu com esforo.
- H algo que quero que me prometa, Annie.
- J sei. Se lembrar alguma coisa, devo contar imediatamente e...
- No. No era isso que eu ia pedir. Quero que prometa que no vai desaparecer novamente.
Dominic temia que ela aproveitasse sua ausncia para fugir. Apesar de toda a fora dos ombros largos e da autoridade emanada por sua postura dominadora, temia ser 
enganado mais uma vez.
- E se eu no prometer? - Ento no irei.
Ela piscou surpresa. Por que ele considerava sua presena to importante? Talvez... No. Estava deixando a imaginao ir longe demais. Dominic s queria convenc-la 
a ficar porque ainda no sabia o que a levara a deix-lo no passado.
- Eu... prometo - disse. Olhou para o calendrio na parede e contou os riscos que ia fazendo sobre os dias. Estava ali h mais de um ms. Mais de um ms? O estmago 
parecia imitar os movimentos de uma mquina de lavar roupas. Isso.significava...
Com esforo, conseguiu conter a ansiedade at despedir-se de Dominic. Sozinha, correu ao calendrio e contou os dias em sentido contrrio. O pnico e a nusea disputavam 
a supremacia das sensaes, enquanto a verdade a atingia com a fora de uma chicotada. Trmula, pegou o telefone e comeou a discar o nmero de Helena, mas desistiu 
antes de completar a ligao.
- No! No podia compartilhar seus temores com ningum. Ainda no. No enquanto no tivesse certeza. Podia caminhar at a cidade. No era muito longe e havia uma 
farmcia ao p da encosta. L encontraria tudo de que precisava. Como'o carro de Helena havia quebrado, Annie fizera questo de emprestar o seu automvel, e por 
isso estava a p.
Trs horas mais tarde, no banheiro, ela olhava para o resultado do teste de gravidez. O segundo... E ambos apontavam na mesma direo. Grvida! Dominic ficaria... 
Dominic!
De repente o banheiro comeou a rodar. Num movimento instintivo, estendeu a mo para a porta a fim de sustentar o prprio peso. Imagens confusas se formavam em sua 
cabea. Sons, cenrios... lembranas.
Com esforo, conseguiu caminhar at o quarto de Dominic e cair sobre a cama. A cortina que a separara do passado, que a protegera dele, abria-se subitamente, e de 
repente conhecia a resposta para a dvida do marido. Oh, sim, agora sabia!
Estava esperando um filho de Dominic. Como havia imaginado e temido no passado. Naquela poca tudo no passara de um alarme falso. Mas agora...
Atormentada, fechou os olhos e ouviu a prpria voz ecoando na memria.
- No quer ter filhos? - No.
A resposta fora curta e rspida.
Ficara chocada, assustada. Durante dias vivera preocupada com a possibilidade de ter esquecido de tomar a plula em algum perodo do ms. No planejavam iniciar 
uma famlia to cedo, e sentira falta do apoio e do amor de Dominic naquele momento de angstia e apreenso. Mas a reao dele ameaava destrui-la... e arruinara 
sua confiana nele.
- Por que no? - Havia persistido.
- A paternidade no se limita a ter um beb, Annie. A deciso de ter filhos envolve... Envolve uma grande responsabilidade. Quando criamos um ser humano no estamos 
dando a ele apenas a vida. Estamos tambm impondo a essa criatura nossa histria pessoal, nossas escolhas e decises. E no momento, sinto que no quero sobrecarregar 
uma criana com todas essas opes.
Uma histria pessoal. Entendera o que ele havia tentado dizer. Dominic se referira ao fato de no saberem nada sobre sua herana gentica, sobre o que poderia transmitir 
atravs de seu sangue. Um sangue ruim. Essa havia sido a maior preocupao de Dominic: Ele tivera medo de contaminar seu filho com um sangue que poderia ser ruim.
Annie teve a sensao de que parte dela morria. Acreditara nas juras de amor de Dominic. Ele havia dito que no se importava com sua origem, com o passado de abandono, 
mas mentira.
E o pior ainda viria. Pensara em confessar seu temor, apesar de tudo que acabara de -ouvir. Convencera-se de que a honestidade seria o melhor caminho, mas a reao 
de Dominic  sugesto de uma possvel gravidez a deixara atordoada.
- Aborto! - repetira plida.
No conseguia entender tudo que havia acontecido. Mas o panorama geral era bvio. Em menos de vinte e quatro horas, com um punhado de palavras, Dominic destrura 
seu amor, sua vida, seu futuro, sua confiana... e havia sugerido que destrussem tambm o beb que ela imaginava estar esperando.
Naquele momento decidira que no queria mais a unio. No suportava respirar o mesmo ar que Dominic. 
Odiava a idia da proximidade fsica. Ele mentira ao jurar seu amor. No queria seu filho... Ou melhor, no queria que ela fosse a me desse filho.
Passara a ser um estranho para ela. Um estranho que ameaava a vida de seu filho... um filho que protegeria com a prpria vida.
Jamais abandonaria um filho como sua me havia feito. Pobre beb! Por que teria de sofrer as conseqncias do gesto de algum que nem conhecera? No poderia mais 
viver com Dominic. No suportaria a tenso, o medo e a decepo.
Naquela noite, Annie no conseguira dormir. Dominic havia tomado um remdio muito forte para dor de cabea. A lgica indicava que o mais sensato seria esperar que 
ele deixasse o pas para s ento desaparecer de sua vida. Mas ainda teria de esperar duas semanas at a data marcada para a viagem, e temia trair a si mesma nesse 
perodo de convivncia forada.
Levada pelo desespero, deixara o leito conjugal e a casa levando apenas o mnimo necessrio.




Captulo 9

Mais de duas semanas haviam se passado desde que deixara Dominic. Em pouco tempo ele deixaria o pas, e ento... Ento nunca mais o veria.
No sabia por que havia voltado ali, ao lugar onde nascera. Hospedara-se na penso mais barata que pudera encontrar, porque agora era a nica responsvel pela prpria 
sobrevivncia e precisava economizar. Estivera na biblioteca e lera novamente o artigo de jornal publicado quando fora abandonada. A senhora que a encontrara morrera 
muitos anos antes, e no havia mais nenhum elo que pudesse ajud-la a encontrar suas razes. Como tambm no havia nenhuma possibilidade de futuro como esposa de 
Dominic.
Ah, Dominic!
Sentia tanta falta dele! Apesar do sofrimento e da dor causados pela decepo, ainda o amava.
Passava da meia-noite. O que ele estaria fazendo? Pensaria nela? Seria possvel que ainda a amasse como mulher, embora a rejeitasse como me de seu filho?
Annie ainda permanecia acordada quando o novo dia tingiu o cu de vermelho.
Mais algumas horas e Dominic estaria partindo. Pensar em nunca mais v-lo despertava nela o desejo de morrer. Mas precisava viver. Tinha de pensar no beb...
Precisava v-lo... nem que fosse s mais uma vez... S v-lo, mais nada... No diria nada a ele, porque no podia. Ficaria escondida e o veria partindo... saindo 
de sua vida... da vida de seu filho... a criana para quem ele no a considerava uma boa me.
Estava na estao, esperando pelo trem que a levaria ao aeroporto, quando descobriu que a viagem havia sido em vo. No haveria nenhum beb.
Quando terminou de atender  emergncia representada pela menstruao inesperada e secou as lgrimas derramadas pela vida que no chegaria a existir, o trem j havia 
partido. Atordoada, decidiu embarcar na composio seguinte. No havia nenhum beb, nenhum motivo para mant-la afastada de Dominic, mas o mal estava feito. Sabia 
que ele no a julgava digna de ser me de seu filho. Se pudesse alcan-lo antes que ele partisse, diria que o casamento acabara, que estava livre para encontrar 
uma mulher boa o bastante para fazer parte de sua vida.
A viagem demorou mais do que esperava. Perdera o expresso, e o trem em que embarcara era mais lento, com paradas marcadas em todas as estaes do percurso. Quando 
pisou na plataforma, Annie soube que Dominic j estava a caminho de Heathrow, de onde decolaria seu vo.
Sem saber o que fazer, atravessou a estrada na faixa de pedestres... e s teve tempo para ouvir a buzina do carro em alta velocidade.
Trmula, Annie secou as lgrimas com o dorso da mo. Era intil chorar pela garota que um dia fora. Chorar no a ajudaria em nada.
Olhou para o relgio e surpreendeu-se ao descobrir que passara horas no quarto de Dominic. Olhou em volta e soube como havia sido dormir nos braos dele, ser amada 
e corresponder a esse amor. Agora entendia por que fora incapaz de destruir os sentimentos que a torturavam. Jamais deixara de am-lo. Nem por um segundo.
Ele a acusara de t-lo abandonado, mas a realidade era que ele a deixara.
Teria de contar a ele tudo que descobrira. Dominic tinha o direito de saber... Sobre o passado, sim, mas no sobre o presente e o beb que sabia estar esperando. 
Esse era um aspecto de sua vida que no interessava a ele. No era mais uma criana imatura. Era uma mulher adulta e madura, e no precisava da ajuda de um homem 
para assumir a responsabilidade de guiar uma nova vida.
Fechou os olhos e decidiu que no ia mais chorar. De que adiantaria?
A lgica sugeria que devia esperar pelo retorno de Dominic para relatar as novidades, mas a ansiedade e o instinto apontavam em outra direo. Se passassem muito 
tempo sozinhos, ele acabaria pressentindo seu segredo e, como sempre, encontraria o caminho para desvend-lo.
Pegaria um txi, iria ao escritrio de Dominic levando sua mala, e de l seguiria direto para sua casa.
Dominic olhava pela janela do escritrio. Devia ter ficado em casa. Afinal, era l que estavam seus pensamentos... em casa, com Annie. Annie... Sua mulher. A mulher 
que o abandonara. Seu amor...
Era intil continuar fugindo da verdade. Ainda a amava, talvez mais do que a amara no passado, se fosse possvel. Madura, ela era ainda mais atraente e fascinante. 
Precisava v-Ia, falar com ela... revelar o que sentia e, depois disso, se Annie ainda quisesse sua liberdade...
Determinado, deixou o escritrio a caminho da sada do edifcio.
Annie deixou o motorista do txi esperando por ela no estacionamento. Nervosa, saiu do terreno delimitado por muros e comeou a atravessar a rua. Eram quase cinco 
horas da tarde e os funcionrios j comeavam a sair do edifcio. De repente ela parou ao ver Dominic entre eles.
- Annie! - O que ela fazia ali? Comeou a caminhar em sua direo, estranhando a palidez e a rigidez nos msculos tensos. - Annie? - Um tremor a sacudiu. Era como 
ver uma esttua adquirindo vida. - Annie...
Pelo canto do olho, viu o carro se aproximando. Ela continuava parada, sem se dar conta do perigo. Com a velocidade de um ser super-humano, conseguiu alcan-la 
e empurr-la para a calada, usando o prprio corpo para amortizar a queda enquanto rolava para longe da pista e do automvel.
Ao cair, sentiu o impacto metlico contra o corpo e deixou escapar uma exclamao de surpresa e dor. O corpo parecia entorpecido... pesado... Podia ouvir gritos 
distantes... vozes... uma sirene.
- Ah, finalmente voltou ao mundo dos vivos. Vou avisar o dr. Spears.
Tonto, Dominic olhou para o rosto da enfermeira ao lado da cama. Ela acionava uma campainha presa  parede. Onde estava? O que havia acontecido? De repente lembrou-se 
de tudo e tentou sentar-se, ignorando o aviso da enfermeira e a dor aguda nas costelas.
- Annie.:. Minha esposa... Ela...
- Ela est bem - a enfermeira respondeu sorrindo. - E o beb tambm.
- Beb?
- Acalme-se, por favor. Est alterando seu ritmo cardaco, e isso no  bom. Sua esposa teve sorte por ter um marido rpido e gil. Caso contrrio, a histria teria 
um final muito diferente para ela e o beb.
Annie estava grvida!
Dominic fechou os olhos, sentindo que o corpo todo era banhado por uma enxurrada de suor gelado. Deus, o que poderia ter perdido! 
- Onde est ela...?
- O dr. Spears mandou-a para casa. Ela no queria ir. Esteve sentada ao lado de sua cama por quase vinte e quatro horas, mas o mdico a fez compreender que ela precisa 
descansar, ou pode prejudicar o beb.
Vinte e quatro horas. Annie passara todo esse tempo a seu lado!
- H quanto tempo estou aqui?
- Dois dias. O impacto do carro o fez perder a conscincia, e depois o dr. Spears teve de aplicar sedativos para examin-lo melhor. Ele chegou a pensar em uma leso 
permanente na coluna, mas felizmente para voc, tudo no passou de um susto.
- Quero ir para casa.
- O qu? Acha que vou deix-lo sair levando nosso precioso equipamento? - ela riu.
S ento Dominic percebeu os fios presos em diversas partes de seu corpo.
- Se estou bem, por que tudo isto?
- Temos de monitor-lo. Para isso servem os hospitais. Embora no sinta, seu corpo ainda sente os efeitos do choque. No sofreu nenhuma fratura, mas tem uma coleo 
de hematomas e vai encontrar dificuldades para locomover-se por um bom tempo.
- Por quanto tempo?
- Bem... Ah, aqui est o dr. Spears! - A jovem sorriu para o homem que entrava no quarto.
- S quero saber quando posso ir para casa - Dominic disse ao mdico assim que a enfermeira saiu. - Preciso ver minha esposa. Ela est grvida.
- Sim, eu sei. Pobrezinha! A princpio no soube com quem devia se preocupar primeiro. Mas depois, quando teve certeza de que o beb estava bem, ela concentrou toda 
a apreenso em voc. Consegui convenc-la a ir para casa e descansar, mas no foi nada fcil.
- Ela no devia estar sozinha.. Sofreu um grave acidente h cinco anos e...
- Tambm j conheo toda essa histria. Estava de planto quando ela foi trazida pela ambulncia. Mas no precisa se preocupar, meu caro. O instinto maternal  o 
mais forte que existe, e ele confere s mulheres uma fora especial.
- Quero ir para casa.
- Lamento, mas vai ter de esperar. Primeiro temos de acompanhar seu estado geral e a evoluo dos hematomas. Quando comearem a clarear, ento teremos certeza de 
que est se recuperando. Ah, a est a enfermeira com sua injeo de analgsicos. Precisa descansar, meu amigo.
- No! No quero... - Dominic comeou.
Mas era tarde demais. A enfermeira j estava inserindo a seringa na pele de seu brao, e minutos depois ele mergulhou novamente na inconscincia.


Captulo 10

- Dominic poder vir para casa hoje. 
-  Sim, eu sei - Annie respondeu, deixando sobre a mesa a xcara com o caf que Helena havia preparado. - Recebi um telefonema do hospital. Irei busc-lo mais tarde 
e...
- Quando vai contar a ele sobre o beb?
- No vou contar. - Tomara a deciso e estava irredutvel. - J lhe falei sobre tudo que houve no passado. Consegui me lembrar do motivo de nossa separao. Nada 
mudou.
- Tem razo, nada mudou. Voc ainda o ama. -Sim, eu amo Dominic. Mas o beb  mais importante que tudo.
- O hospital s decidiu liber-lo porque o mdico pensa que voc estar perto para cuidar dele. Dominic ainda, no se recuperou por completo, Annie.
- Mas eu vou estar aqui. Devo isso a ele. Depois de tudo que fez por mim...
- No precisa justificar sua deciso - Helena cortou com tom seco. - Mas, como sua amiga, sinto-me no dever de sugerir que pense mais um pouco. O filho que carrega 
em seu ventre tambm  dele.
- No. E meu. Ele no quer o beb. Lembro-me de como era no passado.
- Est falando de algo que aconteceu h cinco anos.
- Cinco anos, cinqenta... As manchas de um leopardo no mudam com o passar do tempo.
- No, mas um homem  diferente e pode mudar de idia.
- Um homem, sim... mas eu no vou mudar de idia.
Uma semana se passara desde o acidente. Dominic ainda sentia dores e tinha a perna direita imobilizada onde o carro havia causado um ferimento mais profundo. O curativo 
tinha de ser trocado diariamente.
- Acha que vai conseguir?
Antes que Annie pudesse responder, Dominic adiantou-se. - Ela no ter de se preocupar com isso. Eu mesmo farei os curativos.
- Sim, sou capaz de cuidar do ferimento - ela anunciou em voz baixa, ignorando a interrupo.
Mesmo com a gravidez confirmada, tinha de adiar os planos e as decises referentes ao seu futuro e ao do beb, pelo menos at que Dominic estivesse novamente bem. 
Devia isso a ele.
- Apie-se em mim - orientou-o, notando que ele mancava na direo da porta do quarto. - O carro no est muito longe da sada do prdio, mas se preferir usar uma 
cadeira de rodas...
- O que quero  ser tratado como um adulto que sou, no como uma criana. Posso caminhar sozinho, Annie. Lembrando tudo que sentira depois do acidente, ela engoliu 
a resposta rspida.
Enquanto tentava esconder a dor causada pelo esforo, Dominic imaginava quando ela falaria sobre a gravidez. Apesar de ter ido visita-lo diariamente naquela semana, 
Annie ainda no mencionara o assunto, e de repente tomava conscincia de uma irritante inverso de papis. Era ele quem devia estar cuidando dela, oferecendo carinho 
e proteo.
- 0 dr. Spears sugeriu que voc dormisse na parte de baixo da casa durante os primeiros dias - Annie anunciou quando entraram no carro. Usava o automvel de Dominic, 
maior e mais confortvel.
- De jeito nenhum! Pelo amor de Deus, no sou um invlido! No preciso de tratamento especial. Na verdade... - O qu? - ela interrompeu impaciente. - Na verdade 
prefere que eu v embora? O hospital no teria permitido que voltasse para casa se soubessem que ficaria sozinho. Dominic olhou pela janela do carro. Chegara a alimentar 
esperanas de uma reconciliao ao saber que ela passara horas seguidas ao lado de sua cama. Mas depois, quando havia recuperado a conscincia, notara um distanciamento 
que s crescia com o passar do tempo. Em vez de abrir espao para que ele manifestasse sua alegria com a chegada de um filho e com a possibilidade de reconstrurem 
o casamento, Annie erguera uma parede que ele no conseguia transpor.
Em casa, ela desceu do automvel para ir abrir a porta de casa. Quando se virou para ir busc-lo, notou que ele tambm havia saltado e que estava plido, certamente 
em funo da dor provocada pelo esforo.
- Dominic! - gritou, correndo ao seu encontro. - Por que fez isso? Devia ter me esperado!
- Esperar por voc? Para qu? De que adiantou esperar tanto?
Se no o conhecesse, pensaria que a dor estampada em seus olhos ia alm do aspecto fsico. Mas de que serviria atormentar-se? Dominic j havia dito que deixara de 
ama-la.
Se pudesse dar-se ao luxo de pensar apenas em si mesma, provavelmente cederia ao desejo que ainda existia entre eles, mas a certeza da existncia de outra vida dentro 
dela, de um ser frgil e 'vulnervel que dependeria dela para tudo conferia uma fora muito maior do que jamais sonhara possuir. Por mais que o corpo clamasse pelo 
dele, no aceitaria a satisfao superficial do contato meramente sexual.
Entraram em silncio. Quando se aproximaram da escada, Dominic removeu o brao de sobre seus ombros e deu um passo hesitante.
- Posso subir sozinho. Se continuar apoiando meu peso em voc, vai acabar machucada e dolorida. Dolorida? E s agora ele se preocupava com sua dor? Depois de tudo 
que fizera? No sabia se ria ou chorava. De qualquer maneira, ele tinha razo. Podia cair, e ento... Impotente, ficou observando enquanto ele subia a escada com 
dificuldade. Ao v-lo superar o ltimo degrau, subiu para ajud-lo a chegar ao quarto, ignorando a raiva que estava estampada em seu rosto.
- Obrigado. Mas posso despir-me sozinho. A menos,  claro, que queira apreciar o espetculo.
Humilhada, Annie saiu apressada. Mais do que ningum, sabia que o sofrimento e a incapacidade podiam tornar amargo at o mais doce temperamento, mas pensar nele 
nu... No! Esse era um pensamento que no podia mais ter.
Era tarde quando o som no quarto de Dominic perturbou seu sono. Assustada, levantou-se e vestiu o robe enquanto corria para aporta. O gemido angustiado que ouviu 
ao entrar no aposento vizinho oprimiu seu corao.
Dominic estava deitado no meio da cama, os lenis emaranhados expondo metade do corpo nu, os ferimentos evidentes na pele bronzeada.
Desviando os olhos da evidncia de sua masculinidade, Annie debruou-se sobre seu corpo com a inteno de cobri-lo, mas teve o brao agarrado pelos dedos firmes. 
- Estava sonhando com voc...
Os dedos acariciavam a parte interna do pulso, causando perigosas reaes.
- Dominic, pare com isso! Voc no est bem. No devia... - O qu? Fazer amor com minha esposa? No hospital me disseram que eu podia fazer tudo de que me sentisse 
capaz, e neste momento sinto-me mais do que pronto para fazer amor com voc, minha Annie...
Minha Annie! No era mais dele.
Devia recuar, fugir... mas no conseguia. Permanecia ali parada, ao alcance das mos e dos lbios que representavam uma tentao irresistvel.
- Lembro-me da primeira vez em que fizemos amor nesta cama - ele murmurou entre um beijo e outro. - Foi to maravilhoso...  uma pena que no possa lembrar... - 
Abriu seu robe e comeou a acariciar a pele nua, detendo-se por alguns segundos sobre seu ventre. Teria sido um gesto deliberado? - Eu a queria com loucura... E 
ainda a quero.
Deviam ser os medicamentos. Sim, era isso. Dominic estava sob efeito de drogas pesadas, tranqilizantes e analgsicos, e no tinha conscincia do que fazia ou dizia. 
E mesmo assim era capaz de excit-la.
Eram seus sonhos... seus anseios... as lembranas adquirindo vida prpria. Devia det-lo enquanto ainda podia. Mas, em vez de empurr-lo, descobriu que o abraava 
como se a prpria vida dependesse daquele contato.
- Tudo bem com voc? - ele perguntou num sussurro sensual ao penetr-la.
- Eu quero que... - Pare! Era isso que pretendia dizer, mas a paixo superava a razo e calava sua voz. - Quero que faa amor comigo, que me abrace...
Por alguns momentos, at o beb foi esquecido em meio ao fogo que a consumia. Acomodando o corpo musculoso sobre o seu, ergueu os quadris demonstrando que no podia 
mais esperar pelo momento da completa unio, e juntos explodiram num clmax violento e envolvente como nunca haviam experimentado antes.
- Dominic, sua perna... os ferimentos... - ela gaguejou pouco depois, quando percebeu o que havia acontecido. - Que perna... que ferimentos? - Dominic brincou.
Cometera um erro imperdovel. Lgrimas ameaavam transbordar de seus olhos, mas quando tentou levantarse, ele a prendeu entre os braos.
- No! Quero voc aqui comigo, Annie. Preciso t-la a meu lado. Por favor, fique!
Na escurido, ela lutou contra as prprias emoes. Eram os medicamentos. Dominic no a queria de verdade. Quieta, esperou at ter certeza de que ele dormia, e ento 
levantou-se e vestiu o robe.
Quando voltou ao quarto, sua cama parecia fria, solitria e vazia. E cada vez que fechava os olhos, tudo que via era o rosto de Dominic iluminado por um sorriso 
satisfeito.
Dominic franziu a testa ao ver Annie pela janela do escritrio. Ela estava no jardim, onde fora colher algumas folhas de hortel para o cordeiro que preparava. Estava 
em casa h alguns dias, e Annie ainda no mencionara a gravidez. Desde a primeira noite, quando fizeram amor, a atmosfera havia se tornado fria e distante. E no 
podia culp-la pela mudana. Annie tinha bons motivos para estar zangada. Tirara proveito de sua generosidade para satisfazer as necessidades do prprio corpo, sem 
levar em considerao o que ela podia estar sentindo. Ao v-Ia caminhar devagar, relutante, de volta para a casa e para ele, Dominic tomou uma deciso. Se ela no 
tinha coragem para falar sobre o beb, ele teria de tomar a iniciativa.
- No est comendo o carneiro - Annie protestou ao v-lo cruzar os talheres sobre o prato cheio.
- Estou sem apetite. Annie, h algo que....
- Carneiro sempre foi seu prato favorito - ela interrompeu apreensiva. Depois parou, plida, tomando conscincia do erro que acabara de cometer. Podia ver a raiva 
nos olhos de Dominic.
- Ento voc lembrou? - Sim... 
- Quando?
O tom baixo no a enganava. Sabia que ele estava prestes a explodir.
- Foi... antes do acidente. Eu ia lhe contar, mas... - Mas preferiu guardar seu precioso segredo. Por que me deixou, Annie? Porque teve uma crise temperamental, 
como uma menina mimada e egosta, ou porque percebeu que no me amava?
- No!
- No? E s isso que tem a dizer? Fale de uma vez, Annie! Quero saber tudo!
A raiva explosiva a amedrontava, mas no o deixaria perceber que podia intimida-la. Afinal, tambm tinha razes para estar ressentida e magoada.
- Quer saber tudo? Muito bem, prepare-se para ouvir uma bela histria! - Pretendia oferecer um relato frio sobre a discusso que a levara a deixa-lo, mas, surpresa, 
ouviu a prpria voz alterada e soube que se deixara dominar pelas emoes. - Vou embora, Dominic! No posso mais ficar aqui. No lhe devo explicaes. No h razo... 
nem necessidade para prolongarmos nossa unio.
- O qu? - Ele ergueu o corpo e bateu as mos abertas sobre a mesa. - No h razo...? Pois saiba que temos um timo motivo para permanecermos juntos. O beb. Nosso 
filho!
Annie empalideceu. Ele sabia! Como?
- Fui informado no hospital -- Dominic explicou com tom seco.
- O beb  meu - ela reagiu, forando um sorriso gelado. - Caso ainda no tenha percebido, tambm me lembrei do que causou a discusso que precedeu minha partida, 
o que voc disse sobre... sobre no querer ter um filho comigo... e sobre preferir que eu me submetesse a um aborto.
- O qu? - Foi a vez dele ficar plido. Devagar, contornou a mesa e segurou-a pelos braos. - Ento estava grvida? Voc...?
- No, Dominic. Pensei que estivesse grvida e fiquei com medo. Voc no queria que eu tivesse seu filho por causa do meu passado, do meu sangue ruim. Tentei explicar, 
mas no quis me ouvir e...
- Espere um minuto! Eu nunca disse nada sobre seu passado, sobre a qualidade de seu sangue ou... Afinal, o que voc est dizendo?
- Voc disse que no queria sobrecarregar uma criana com...
- Com um pai que no poderia estar sempre presente. Um pai que punha a carreira acima de tudo, como meus pais haviam feito. Sei como  crescer sem sentir confiana 
no amor dos pais. Era a essa sobrecarga que eu me referia. Como pode ter pensado que eu... Meu Deus, Annie! Eu a amava com loucura! No estvamos prontos para a 
chegada de um filho,  verdade, mas eu nunca teria... - Parou e respirou fundo. Precisava controlar-se, ou no conseguiria faz-la entender que jamais a julgara 
indigna ou inferior. - Escute, a identidade de seus pais no tem a menor importncia. O que importa  que voc  uma pessoa maravilhosa, especial, um indivduo que 
carrega parte dos genes de cada um deles, mesmo sem t-los conhecido. Sei que teria sentido orgulho de ter essas pessoas como avs de meu filho, porque s criaturas 
maravilhosas poderiam ter criado algum como voc. Honesta, generosa, inteligente, corajosa... e acima de tudo, amorosa. Gostaria de poder dizer o mesmo sobre minha 
herana gentica, mas meus pais eram pessoas egostas e radicais que s conseguiam pensar em suas carreiras, no trabalho que assegurava a riqueza e o conforto que 
julgavam to importantes. Cresci aos cuidados de meus avs, e eles tambm encaravam minha companhia como um fardo, uma responsabilidade da qual no podiam fugir. 
Era essa herana gentica que eu no queria transmitir ao meu filho.
Annie no sabia o que doa mais: saber que perdera para sempre o amor de Dominic, ou ter conscincia de que destrura esse sentimento com sua falta de auto-estima, 
com o medo que sempre tivera de suas origens desconhecidas. Pior ainda era saber que seu filho herdaria a mesma dor, uma criana que teria de viver sem o amor e 
a segurana de um lar habitado por pai e me.
Amava Dominic. Sabia que ele a desejava. Mas desejo e amor eram sentimentos diferentes, e ele mesmo dissera que s a queria a seu lado para obter as respostas de 
que precisava antes de pedir o divrcio.
Naquela manh ele havia descido a escada sem nenhuma ajuda. Era hora de partir, antes que perdesse o pouco que ainda lhe restava de orgulho e dignidade.
Fez as malas com rapidez e eficincia e depois foi procur-lo. Ele estava na cozinha.
- Estou indo embora. J temos as respostas que procurvamos. Podemos entrar com o pedido de divrcio e... - Divrcio? Voc est esperando um filho meu, Annie. No 
vai haver nenhum divrcio.
Annie empalideceu. Imaginara uma reao parecida, mas convencera-se de que era frte o bastante para resistir  tentao.
- Escute - ele continuou com tom mais gentil -, sei que temos obstculos a superar. A confiana  uma semente que deve ser regada e nutrida para crescer forte, mas 
podemos reconstruir uma vida em comum.
Era impossvel. Gostaria de poder acreditar nas palavras doces, mas sabia que ele no a amava.
- Est tentando provar que  um homem responsvel e capaz de assumir seu dever de pai, mas...
- No foi a responsabilidade que me fez desej-la em minha cama naquela noite. E, desculpe-me se estou sendo grosseiro, no foi o dever que a fez ficar l.
- O que aconteceu naquela noite foi...
- Foi um chamado da natureza. Nunca deixei de am-Ia, e duvido que tenha deixado de amar-me. Apesar de ter esquecido esse amor, o sentimento nunca foi extinto. Pelo 
beb, por ns... pelo nosso amor... O nico dever que temos  o de tentarmos novamente.
- No!
- Do que tem medo?
- De nada! Posso cuidar de mim mesma. No preciso... - De mim? Talvez no. Mas nosso filho precisa de ns. Ns dois sabemos como  crescer sem amor, na solido... 
sentindo-se diferente, indigno de ateno...
- Meu beb ser amado. Eu vou amar essa criana. No pode me obrigar a ficar aqui, Dominic. No pode me obrigar a continuar casada com voc. - E correu para o corredor, 
onde havia deixado as malas.
Por um momento temeu que ele a seguisse.. Notando a porta do escritrio entreaberta, entrou para recuperar o flego e viu a foto sobre a mesa, em um porta-retrato. 
A fotografia que haviam tirado no dia do casamento.
Como poderia correr o risco de acreditar no que acabara de ouvir? Como ter certeza de que Dominic realmente a amava? E se estivesse apenas tentando proteger o filho?
Chorando, tocou a foto tirada h cinco anos. Havia sido o dia mais feliz de sua vida. Dominic havia sido o amante perfeito, seu heri... seu nico e verdadeiro amor... 
Mas agora, cinco anos depois, era uma pessoa diferente. Ambos haviam mudado, amadurecido. Mas o amor que sentia por ele, a essncia do sentimento...
No. Se cedesse aos apelos de Dominic, jamais poderia ter certeza de que a amava de verdade.
Decidida, devolveu a foto ao seu lugar de origem e saiu. Pegou as malas no corredor e, levando a chave do carro em uma das mos, abriu a porta.
Ele estava parado ao lado do automvel. Havia uma mala a seus ps.
- Mas o que...
- Se no quer ficar comigo, eu irei com voc. Nunca mais permitirei que fuja de mim e do nosso amor.
- Por favor, no torne este momento mais difcil.
- Nada pode ser mais dificil do que viver sem voc. Vou lev-la para o quarto agora, para acama onde fomos felizes... - Dominic, isto foi h cinco anos!
- No. Nosso filho foi concebido naquela cama. Na noite em que voc me contou sobre seus sonhos, sobre como jamais havia conseguido me esquecer, apesar de ter perdido 
todas as outras lembranas. Ns dois temos recordaes amargas. Medos, inseguranas... Mas o que sentimos um pelo outro  mais forte que tudo. Entregue-se, Annie. 
E depois, se ainda puder afirmar que no existe esperanas para ns, eu a deixarei partir.
- Por favor, no faa isso! No quero...
- O qu? No quer mais meus beijos? - E tomou-a nos braos para um beijo apaixonado.
Era impossvel continuar resistindo. - Vamos, diga que no me quer. - Eu... no posso...
- Porque me ama. E sabe que eu a amo. Voc  minha mulher, Annie. Meu nico amor. Por favor, no me deixe. Sem voc, nada mais far sentido.
Durante algum tempo; os sonhos haviam sido sua nica fonte de alegria e satisfao. Agora tinha a realidade, e ela era muito melhor do.que qualquer conto de fadas 
produzido por sua imaginao. Se mais tarde tivesse de enfrentar o arrependimento e a dor... Bem, pelo menos teria tambm as lembranas.
- Oh, Dominic, tambm amo voc - murmurou. - Prefiro correr todos os riscos a abrir mo deste amor.


Eplogo


-O que significa o A? - Helena perguntou curiosa ao ver Annie redigindo os convites para o batizado da filha de seis meses. -Amnsia -Dominic explicou com um sorriso 
debochado. - Para no esquecermos nunca como ela foi concebida.
- Oh, no! - Helena protestou. - No podem estar pensando... - Parou ao ver que Annie ria e balanava a cabea para o marido.
Helena e Bob haviam ido visit-los para discutirem os detalhes do batizado, e a mdica ainda se espantava com a felicidade radiante do casal. No sabia quando Dominic 
estivera mais feliz: no dia em que renovaram seus votos; um ms antes do nascimento de Charlotte, ou quando segurara a filha pela primeira vez.
- O A  de Alice - Annie explicou.
- Alice? Mas este  meu segundo nome! - Helena exclamou.
- Eu sei. E como madrinha, tem o direito de receber uma pequena homenagem. Depois de tudo que fez por ns, voc merece todas as homenagens que pudermos prestar. 
- Charlotte Alice  um lindo nome!
- Charlotte Amnsia soa melhor - Dominic provocou. - E assim no poderamos esquecer...
- Finja que no est ouvindo - Annie aconselhou a amiga. - Assim ele desistir mais depressa. - E jogou uma almofada contra o marido.
- Ah, vai se arrepender por isso... mais tarde!
Estava escurecendo quando Helena e Bob partiram. Ao virar-se no assento para ajustar o cinto de segurana, ela viu uma luz se acendendo em um quarto no segundo andar 
da casa. Sabia que aquela era a luz do quarto de Annie e Dominic. Havia chegado o momento da vingana.
- Pelo amor de Deus, Dominic! - Annie censurou o marido ao ser jogada sobre a cama.
- Est usando roupas demais, sabe?
- Helena e Bob devem ter notado que acendemos a luz do quarto. Eles vo imaginar...
- O qu? Que no posso esperar para fazer amor com minha esposa? Alm do mais, voc mesma disse que queria vir para a cama cedo.
- Para dormir! No, Dominic... Oh! - Era impossvel no responder s carcias ntimas e provocantes. - Dominic... - Humm?
- No importa. - E abriu os braos para receb-lo. - Nada tem importncia. S voc e... Humm...
- Humm... - ele concordou com um sorriso sexy. - Amnsia... Pobre Helena! No devia brincar assim com ela. E Charlotte...
- Est dormindo. Vamos aproveitar antes que ela acorde, est bem? - E beijou-a para silenci-la.
- Agora entendo porque nunca consegui esquec-lo -. Annie suspirou contente.
- Por que sempre fui o amante de seus sonhos?
- Porque a realidade  muito melhor do que a mais ousada de minhas fantasias. Minha realidade  voc, Dominic. E Charlotte Alice, nosso futuro e nossa felicidade. 
A realidade  ter certeza do nosso amor.






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